Pensei protestar a 15 de Setembro. O aumento da TSU, com toda a injustiça, gratuitidade e ineficácia que promete, foi obviamente o canto do cisne, mas não era só isso. A comunicação do Governo é críptica e repetitiva. Os arrebatamentos são mecânicos, incapazes de suscitar inspiração. A promiscuidade nas privatizações não é, sequer, disfarçada. Há sinais de descoordenação e insensibilidade no conteúdo, forma e prioridade das medidas - não pode ser difícil, p. ex., anunciar renegociação das PPP ou corte das reformas mais altas em conjunto com a descida da TSU, e não em comunicado posterior. Além disso, para alguém que foi eleito no pressuposto de ser "não-PS", o Executivo tem mostrado especial tolerância para com os seus elementos mais fugidios. Estes motivos, todos na dependência do Governo, justificariam uma manifestação. Mas não foi com essa ideia que o povo saiu. Foi para expiar, para projectar, para se alhear do seu sofrimento e imputá-lo ao Poder. É justo quanto baste. Mas permitam-me o cepticismo. O dia 15 de Setembro não assistiu apenas à estreia de muita gente na "rua"- assistiu também ao apetite nacional pelos campos do onírico e do extravagante - o Quinto Império, o Príncipe Perfeito e o Sebastianismo. Exaltou-se um País glorioso (imaginário?), cindiram-se governantes de governados, pobres de ricos, jovens de velhos, alimentando a concepção de um Português bravo e etéreo, tramado pelas elites, a burguesia e os capitalistas. Falou-se em alternativas prósperas e imediatas: a Islandização do País, um novo 25 de Abril, o regresso do Escudo, e outras lendas geralmente acompanhadas de desconfiança na aterragem lunar e conspirações sionistas. É certo que o Primeiro-Ministro roubou aos portugueses a esperança de que as coisas iam melhorar um dia, mas os portugueses manifestaram-se para exigir que as coisas melhorassem já amanhã. É preciso acordar e cheirar o café. Portugal não tem crédito para pagar um ano de despesas correntes. Mandar a Troika fazer as malas não resultaria na "recuperação das vidas" que os cartazes anunciavam, mas numa indigência tão literalmente inacreditável que as próprias vítimas já não acreditam nela e julgam não ter nada a perder. Não têm razão. Não que as multidões precisem dela. Mas o certo é que uma parte importante dos manifestantes, traídos pelo seu maniqueísmo e esperança inebriante, esqueceram-se de quão provável é não existir melhor do que o péssimo. Os restantes partidos (e o próprio PSD, com o seu fetiche autofágico) já se colocaram de faca nos dentes, prontos a defender o povo das investidas "dos ladrões". Contudo, um olhar atento compreende o utilitarismo, o calculismo e a demagogia por detrás dos eufemismos desculpantes da Esquerda, das promessas surreais e indefinidas do PS e da quadratura do círculo do CDS-PP. Houve resistência nobre e um certo orgulho positivo na manifestação. Mas houve também doses pesadas de crença irracional no impossível. E um povo que acredita no impossível está condenado às mãos de quem o promete. O que convida, naturalmente, a que se candidate e chegue ao poder quem tem jeito para prometer o que não pode cumprir. Gostava que as coisas fossem mais fáceis, e houvesse um lugar honrado entre situacionista e revolucionário, um conveniente hiato onde pudesse simplesmente apoiar o Bem e condenar o Mal enquanto bebia umas cervejinhas. Mas o mundo real não é assim. É de escolhas concretas e mutuamente exclusivas. Fiquei em casa por achar que o País, antes de precisar de sonhos, precisa de memória.

Pedro Fontes