Não sou professor. Mas neste início de ano lectivo tento colocar-me no papel de professor e imagino o quanto deve ser deprimente enfrentar a escola nos tempos que correm. Sim, porque uma escola sem o mínimo de condições para funcionar, pode tornar-se num verdadeiro inferno. Porque, muito mau será trabalhar num ambiente onde falta o essencial. Alunos esfomeados. Há ausência generalizada de material para que as aulas funcionem com o mínimo de dignidade. A escola está na miséria, basta dizer que nem dinheiro tem para papel higiénico, quanto mais o outro papel e todo o material de papelaria. Outro aspecto bastante relevante prende-se com a indisciplina ou falta de educação básica dos alunos que cresce de forma acentuada - que não se pense que esta educação deve ser dada pela escola, mas pela família, pelos pais... O respeito pelos outros, o saber estar em cada contexto ou se aprende em casa ou nunca mais se aprende. Por isto tudo, que imagino existir hoje nas nossas escolas, derivado dos apertos e cortes financeiros do Estado e da Região em relação à educação, fazem-nos prever um ano de sérias dificuldades para todos os agentes do processo educativo. A mentalidade dos nossos tempos perdeu totalmente a educação como processo de desenvolvimento humano, como meio de transmissão de cultura, como forma de chegarmos a ter uma sociedade mais livre, agindo de acordo com a sua própria vontade. Numa palavra uma sociedade crescida, com famílias saudáveis e pessoas cultas, equilibradas. A educação com vista ao emprego e a ser um instrumento para ganhar dinheiro, muito dinheiro, redundou neste descalabro educativo. O que temos? - Um bando enorme de desempregados ou desocupados a viver à conta dos salários e reformas dos pais, uma imensa multidão de jovens que passa a vida em noitadas, a se encharcarem de álcool e consumindo drogas. Alguns perdem a saúde para sempre e outros já estão ou vão a caminho dos cemitérios. A educação assente puramente em valores materiais sem ter em conta as pessoas conduz à destruição da humanidade. Não fazem sentido os apertos financeiros indiscriminados, sem critério. Os professores merecem serem bem pagos e que lhes seja colocado à disposição todas as condições. Sem isso, faltará uma verdadeira relação entre alunos e professores, a escola não tem alegria, não é uma festa… A amizade, nada. A solidariedade, zero. A paz, inatingível. A vida e a preparação para ela não acontecerão. Por isso, aos governantes deste país e da nossa região, responsáveis pela escola, pedimos que sejam verdadeiros quanto à aplicação dos impostos. À escola o necessário, para que a educação cumpra o seu dever e prepare verdadeiros homens e mulheres, cidadãos empenhados na construção de um futuro saudável para todos. Um dos maiores pedagogos do século XX, o padre Manuel Antunes (1918-1985) dizia o seguinte sobre a educação: «Que princípios deverão orientar a nova educação do nosso Povo? (...) Ousamos esquematizar: os princípios que tenham em conta a aliança do cérebro, da mão e do coração; os princípios da liberdade, da igualdade e da dignidade de todos os homens; os princípios que possam unir o sentido científico, o sentido tecnológico e o sentido comunitário desde a célula familiar à Sociedade Mundial». Bom, apesar de tudo, desejo um feliz ano lectivo para todos os agentes das nossas escolas.

José Luís Rodrigues