As escolhas que se fazem podem revelar-se nem sempre serem as mais correctas. É assim na vida e na política. Há determinados actos que não podemos depois remediar, pelo menos de forma imediata.

Nas últimas eleições legislativas nacionais, o povo soberano e livre, acreditou que uma mudança de caras no Governo seria o suficiente para livrar o pais da escalada de sacrifícios que estava a ser imposta. Acreditou na gravata verde de Passos Coelho, cuidadosamente estudada por assessores de imagem, e nas palavras de um homem que parecia perceber o povo que se dispunha a liderar.

Esta crença mais ou menos profunda na mudança levou Pedro Passos Coelho ao poder. De antigo líder da jota social democrata, com uma passagem protegida pelas empresas dos amigalhaços do seu PSD, o eleito primeiro ministro achou que tinha ganho uma espécie de carta branca para fazer o que bem lhe apetecesse e para enfiar, de uma só assentada, todas as promessas eleitorais em lugar recôndito e esquecido.

Ao princípio, o incrédulo povo que o tinha elegido, talvez ainda não refeito do choque, aceitou tudo mais ou menos placidamente: o corte nos subsídios, nos feriados, a perda de regalias sociais, o aumento dos impostos.

Lá no fundo, e aos poucos, crescia a consciência de que muito provavelmente tinham cometido um erro, ou melhor dizendo tinham sido enganados.

Mas se o povo pode ser enganado e enganar-se, essa mesma humana condição está ao alcance de qualquer eleito. Pedro Passos Coelho e o seu governo praticaram essa possibilidade até ao limite e escolheram substituir um povo até então calado, pacato e mais ou menos conformado, por um outro que promete não calar, não aceitar, não se subjugar à vontade dos que elegeu para governar.

Este povo subitamente acordado de um sono profundo, não vai calar-se com uma simples alteração à TSU, com manobras estudadas e palavras escolhidas. Um povo que acorda e que vai para a rua porque já não aguenta mais, não é um povo fácil de ludibriar.

O governo cometeu um erro, pensou que tudo lhe era permitido, que tudo lhe tinha sido entregue com o voto. Enganou-se. Há limites que não podem, nem devem ser ultrapassados. Os limites da dignidade e da decência estão nesse reduto inviolável e fora do alcance de qualquer legitimidade eleitoral.

Não se pode tirar tudo, sem a consciência de que o pior adversário é aquele que não tem nada a perder. E foi nesta condição que este governo deixou este povo. Muitos daqueles que encheram as ruas deste país, transformados em autênticos rios humanos, já pouco têm a perder. Já passaram todos os limites.

O que resta ao governo é ouvir e ver, com ouvidos atentos e olhos bem abertos, o que diz esse povo na rua, com a voz e com o rosto. O que dizem os que perderam o emprego, os que não têm dinheiro para mandar os filhos para a escola, os reformados que têm de sustentar a família com as pensões de miséria, os jovens que reclamam um futuro no seu país.

O povo já percebeu que se enganou ao eleger este governo. Mas será que o Governo já percebeu que está a governar um outro povo diferente daquele que o elegeu?

Se não percebeu ainda, é bom que o faça rapidamente. Um novo povo exige um novo governo. É tão simples como isto.