Em entrevista concedida no início da semana em curso ao primeiro canal da Televisão pública, Alberto João Jardim ocupou-se do momento político com particular incidência naquilo que à Madeira diz respeito, e reafirmou a sua disponibilidade para deixar o Governo da Região antes do termo do actual mandato. Não é a primeira vez que Jardim ameaça ir embora - já o tem feito noutras oportunidades sem nunca chegar a concretizar o propósito. Acontece, contudo, que Jardim nunca o fez antes num momento como aquele que presentemente vivemos. Ou seja: em situações antes desta, Jardim limitou-se a repetir um número que já havia anteriormente executado com mais ou menos êxito, anunciando, de forma sempre pouco convicta, a sua retirada, e aguardando os efeitos do anúncio. Nunca, contudo, ao anunciar um tal propósito Jardim admitiu, ao de leve que fosse, a possibilidade de o cumprir. Agora mudaram, todavia, as circunstâncias. Jardim já não representa na Região aquilo que já representou. Já não tem o peso que já teve. Não é mais o senhor todo poderoso da ilha. Nem sequer é neste momento tributário do respeito com que já foi distinguido. Em distintas circunstâncias, Jardim tem vindo a ser contestado. E não são os inimigos do costume, entre os quais sempre elege a Maçonaria, que o têm desrespeitado. É o povo. O povo da Madeira que lhe perdeu o respeito. Nunca tal havia antes acontecido. Nunca Jardim havia sido contestado no seu terreno. Nunca ninguém se havia anteriormente atrevido a dirigir-lhe as diatribes com que agora o distinguem. Sinal dos tempos? É verdade que nunca se viveram tempos como aqueles que agora se atravessam. Mas é igualmente verdade que antes, confrontado com as situações mais delicadas, Jardim sempre havia encontrado espaço para sair pelo buraco da agulha. O que agora não acontece. O que foi que mudou que os dois ou três truques de feira que Jardim antes sempre havia usado com tanto êxito deixaram de resultar? Para além de questões que avultam de forma mais consistente, e de recriminações que têm toda a razão de existir, Jardim não foi capaz de ler e muito menos de entender os sinais que lhe chegavam da rua. Acreditou que o poder - o seu poder - era eterno. E que o povo tinha com ele uma dívida de gratidão que lhe consentiria passar incólume por entre todos os focos de contestação. Jardim com tantos anos de exercício de poder autoritário não foi capaz de entender essa coisa óbvia que decorre da erosão causada pelo poder, ainda mesmo que se trate de um poder benévolo, que não é o caso. Jardim não foi capaz de entender que em sociedades democráticas o poder não se perpetua por décadas e décadas de exercício com todos os sinais de desvario, de incompetência e de favorecimento conforme é o caso. Não lhe chegaram os sinais da primavera árabe que apeou líderes supostamente também queridos dos seus 'súbditos' e que tinham - alguns - mais de trinta anos de exercício de poder para tomar as suas distâncias! Na entrevista já antes referida, Jardim referiu não poder ser acusado nem ter sido acusado de se aproveitar de dinheiros públicos para avantajar o seu património, esquecendo-se que em democracia isso constitui como que o mínimo ético exigível a quem lida com a coisa pública. Jardim não disse que outros seus próximos não o tenham feito. Jardim não explica como é que diz ignorar graves atropelos à coisa pública, cometidos nas suas barbas, para usar uma imagem que tem cidadania isto para apenas se invocarem situações mais recentes, e que após as explicações públicas que foram dadas são do conhecimento generalizado dos portugueses. Jardim não explica como é que a Madeira deixou de ser uma região modelo tal como a propaganda organizada a partir do Funchal a apresentou durante muito tempo para passar a ser um foco de despesismo, de desperdício, um mau exemplo de execução de despesas não reprodutivas insusceptíveis de gerarem benefícios para as populações. Erros seus que não a má fortuna conjuraram-se para que Jardim tenha perdido a auréola de obreiro do milagre que transformou uma região secularmente empobrecida num 'case study' que chegou a ser apontado como um êxito de transformação e de reabilitação económica. Os últimos episódios obstam a que essa imagem, que constituiu uma marca, volte a vender. A boa estrela de Jardim apagou-se. E a menos que o recente anúncio de disponibilidade para deixar o Governo da Região constitua uma última tentativa de ensaiar um novo número de prestidigitação, recurso de que no passado Jardim lançou mão com garantido êxito, este deve ser o último truque do velho ilusionista. Jardim não soube entender os sinais que significavam a evidência de que o fim da linha estava a chegar e vai, tudo o indica, pagar a sua cegueira da forma mais dolorosa.
Carlos Sequeira