Quando regressei a casa depois daquele baptismo de cidadania que no sábado 15 de Setembro encheu de gente boa este País de governantes maus, senti um estranho impulso. Peguei na caneta de estimação que a minha amiga Iolanda há anos me oferecera e escrevi um discurso, como se no dia seguinte, transportado pela vassoura do Harry Potter, fosse subir ao palco do Chão da Lagoa. O facto de esta festa-comício laranja já se ter realizado, seria apenas um pormenor insignificante que a minha imaginação colorida certamente resolveria. E resolveu! Sem saber como, lá estava eu, com uma poncha na mão a ouvir o Quim Barreiros e o seu "cheira a bacalhau". Já em momento de elevado conteúdo político, surge a intervenção do Secretário-geral do PSD-M. Confesso que esperava uma análise preocupada sobre os reflexos da crise financeira na economia regional, mas apenas fiquei a saber que ele apoiava o Sr. Presidente e que não gostava de ingleses. Talvez traído pelo calor da emoção, acho que baralhou o discurso, pois disse que era o Diário de Noticias e não o JM, o jornal que vivia à custa dos nossos impostos. Sempre em crescendo, tem a palavra o futuro da Região através da voz de um jovem, que estranhamente, em vez de se insurgir contra o vergonhoso desemprego que esmaga e "assassina" a nossa juventude, disse, num discurso fogoso, que também ele apoiava o Sr. Presidente e que quem não salta… não é da JSD. Para ser elegante, direi que o calor e a poncha invadiram o meu cansaço e adormeci profundamente. Lamento, mas acabei por não ouvir os dois discursos mais importantes. É porém voz corrente entre ilustres e populares, que uma das intervenções terá sido serena, limpa e escorreita, enquanto o outro discurso, exaltado, pouco limpo e confuso. Não sei se o meu sono profundo durou horas, dias ou anos. Mas ao acordar, senti que o dia 15 de Setembro trouxera consigo uma exigência de cidadania que me obrigava a estar ali e a dizer serenamente ao partido que há mais de 30 anos governa esta Ilha, que tem de entender bem depressa os sinais do tempo e não deixar cair na sarjeta do insulto e da ameaça, um património de valores e princípios que há muito andam escondidos em palavras vazias e gestos grosseiros. E qual Zaratustra, comecei o meu discurso: " Caros amigos, sou um simples cidadão anónimo e vulgar. Não tenho qualquer cartão partidário, nem represento nenhum sindicato. Não sou convidado de honra em parte alguma nem frequento os corredores do poder. Mas descobri no dia 15 de Setembro, que como simples cidadão até sou uma pessoa importante e como tal, mesmo sem ter sido convidado, estou aqui e vão ter que me ouvir, pois falo em nome de mais de um milhão de portugueses! Um milhão que reagiu à depressão dos vencidos e rejeitou a violência dos desesperados. Sem bandeiras de partidos nem faixas sindicais, passeámos a Democracia pelas ruas e praças deste País e desta Ilha e é em seu nome, em nome da Democracia, que estou aqui e peço a vossa atenção. Por favor, expliquem a toda esta gente que não é tonta, como pode um partido defender o pluralismo democrático na Região, se uma simples, normal e desejável disputa eleitoral dentro da sua casa, provoca uma tempestade de insultos, suspeitas de chapelada e atitudes patéticas de faca na liga? Como pode um partido que se refere aos deputados eleitos com uma "cambada de tontos", prestigiar a Assembleia Legislativa como órgão máximo da Democracia Regional? Como pode um partido que maltrata, ameaça e não respeita "quem se lhe atravessa no caminho", exigir ser respeitado por alguém?" Olhei sem surpresa aquele descampado completamente deserto, como se o percurso da história tivesse apagado para sempre o velho Chão da Lagoa. Como se uma brisa suave que anuncia a primavera, trouxesse àquele lugar um silêncio lúcido e atento, pronuncio quase divino de todas as mudanças.

Manuel Brito