1. A habitual peregrinação ao Chão da Lagoa foi um meio fiasco. O (ainda) líder do laranjal insular está, literalmente, em baixo de forma e com as calças na mão. Nervoso. Para além dos "ataques externos" habituais, vindos de Lisboa, da maçonaria, da trilateral e de Marte, tem de conviver, no seu terreno, comum "ataque interno", com rosto e com voz. É notório e visível: Miguel Albuquerque perturba-o. Não fosse a presença do autarca do Funchal e a excursão deste ano ao arraial laranja não seria mais do que outra exibição à moda da "Brigada do Reumático". Lá estavam os de sempre, velhos e indisfarçavelmente cansados, mas ávidos por se manterem, por mais meia dúzia de anos, a acumular salários e reformas à margem da mais elementar gota de ética. Este retrato esforçado do suposto apoio popular ao poder regional já foi "chão que deu uvas". Está esgotado e é uma imagem esbatida das enchentes de outros anos. A maior parte dos madeirenses está a fazer um esforço titânico para manter alguma dignidade de vida, para poder dar educação aos filhos, para se alimentar condignamente, tendo já abdicado de férias e de outras formas de lazer. Perante o caos em que este governo regional colocou a Madeira e os seus habitantes, a que acresce a crise europeia e nacional, restará ainda paciência para jogos políticos interesseiros e primários, como o que vimos no passado domingo no Chão da Lagoa? Confesso que o que mais me incomoda na sociedade madeirense é o seu receio de protestar alto contra as injustiças e contra este folclore de mau gosto. O receio de as pessoas dizerem o que pensam, de forma aberta, em qualquer lado. O receio da má impressão que isso possa causar. Das "chatices" que daí possam advir. Criou-se, com a administração pública, o hábito de não se contestar o "patrão", o chefe, o administrador, o presidente. Simulacros de arraiais à parte, o que se vai passar nos próximos meses no PSD/M não dirá apenas respeito aos seus militantes, dirá respeito a todos. As notícias que chegam da Madeira são assustadoras: quase 500 famílias vivem da solidariedade. Dependem dela para comer. O número de desempregados disparou drasticamente. Os combustíveis atingem recordes impensáveis. E há cada vez mais estudantes a desistirem da universidade. O povo simples e honesto está a empobrecer, a perder poder de compra efetivo. Sobre isto o que é que nos diz do alto da serra o líder do governo? Tenham "esperança". Sem comentários, porque a sua luta é pelo poder. Apenas e só. Por isso começa a ser imperioso conhecer as ideias de Miguel Albuquerque. Qual é, afinal, o seu projeto? 2. É de mais evidente que a classe política que nos governa não vive a mesma realidade da maioria das pessoas que a elegeu. É um facto incontornável que os governantes deste país são uns privilegiados junto da esmagadora maioria da população portuguesa. Sem demagogias: saberão esses senhores o que é o verdadeiro aperto financeiro? Sabem o que é consultar diariamente o saldo de uma única conta bancária e constatar que, ou se espreme ainda mais o orçamento familiar, ou a renda da casa fica por pagar? Esta classe que nos castiga constantemente com aumentos brutais de impostos e taxas, para remediar as medidas irresponsáveis e levianas que instauraram durante décadas está a sentir na pele os efeitos da crise? Sinceramente, não está. Esse pessoal que nos está a tramar a vida deveria, num exercício coerente e não demagógico, viver também com o valor do salário médio português. Aí sim, teriam legitimidade de opinarem com conhecimento de causa. E até poderia ser do Chão da Lagoa.
Roberto Ferreira