Disseram-me que a securitização (brincadeira de cabotinos da economia - o dinheiro tem o caraças de enredos) está a ser aceite e que não podemos afrouxar no desmame que nos fazem. Posso acreditar? Vai um samba-enredo para substituir este malhão nas arcas? 'Como será o amanhã (...)?' Que palavras colocar no cartaz de protesto? Talvez estas, de Mark Westbrook: "Um actor diz a verdade e o mentiroso engana. O vigarista envolve a mentira em verdade para nos ajudar a comprá-la." Todos sabemos que as flores são apenas folhas modificadas. Isto faz-me pensar naquele minimanual de instruções de como fazer acertar o corte do papel higiénico nas duas folhas duma vez... Parece-me que se pode meter as mãos neste betão todo. Temos brocas nos dedos. Há que esculpir, enterrar, desentupir os vasos, saber que a gente é capaz de mudança sem cervejas ao ar. Tem uma senhora a tocar à porta. Não quer dinheiro, tão-só um litro de leite e um quilo de arroz. Tenho mãos para isto? Penso em Siza Vieira, a nossa profissão nunca é fazer a nossa casa. Porquê? Creio que para dar trabalho aos outros e outros nos darem trabalho. Hoje, qual Fidel com asas de pedra, lá estarei na manifestação de 'revolta pacífica'. Resistência? Não ir seria ficar em mim ou deixar, sozinho, alguém. Seria ver, cada vez mais, o metal alumíco dos armários por entre as frutas no Sá, a nossa cara lá reflectida. Dói tanto. A gente quer legumes até lá cima, quer a nossa capacidade de comprar até malmequeres para não sermos chupados por estes odiosos mosquitos. Não levo tachos, nem bandeira branca, nem preta, levo as minhas veias todas na testa ("o coração ali à mão, os pulmões ali ao pé" Manuel António Pina) e vou desfolhar a corrente para evitar a embolia, o luto branco no sangue.

Élvio Camacho, Actor