Estou a ver a entrevista ao primeiro-ministro e lembro-me das primeiras linhas do ‘Ensaio sobre a Cegueira’, de José Saramago. Aquela em que ele tão bem descreve o momento em que um homem fica cego, subitamente, no meio do trânsito. Parece que lhe sentimos a angústia. O leitor pisca os olhos vezes sem conta, de tão real que é a descrição.
Achei que o que faltava a este Governo e ao seu líder era lucidez. Pensei que o grande problema seria um total desconhecimento do país em que vive, mesmo sendo de Massamá, como tantas vezes e orgulhosamente repetiu em campanha, mesmo apresentando-se como o mais africano dos candidatos a primeiro-ministro. Mas o problema do Pedro (como se apresenta no Facebook), o que mesmo que corta a esperança e mata o melhor activo de um país e horas depois aparece em público a cantar a ‘Nini dos 15 anos’, é a cegueira.
Pior cego é sempre o que não quer ver. E neste momento temos um primeiro-ministro de olhos fechados ao povo que o elegeu. Que ignora uma população descontente que grita que este não é o caminho. Que passa ao lado das vozes críticas dentro do partido e da coligação, que atropela o consenso com PS sobre o memorando, que não ouve nem sindicatos, nem patrões (que estão do mesmo lado, imagine-se) e insiste num caminho que, cegamente, considera o mais acertado. Porque vai devolver soberania a Portugal, para que este possa voltar aos mercados. O que o Pedro não percebe é que para a maioria dos portugueses o mais importante é conseguir ir ao mercado. Não aquele abstracto, mas que ninguém sabe o que é, mas àquele que vende a fruta, os legumes e o peixe, com que se alimenta a família. De que nos servirá autonomia se não houver país?
O pior problema do Pedro foi ter ido, cegamente, ao “pote” cedo de mais. A feliz expressão também é dele. Foi ter derrubado um Governo, com muitas culpas na situação actual (mas não é o único), prometendo uma solução que exigia sacrifícios, mas que nos levaria a algum lado. E o país céptico acreditou numa espécie de terra prometida. O que mais incomoda não é o Pedro, que tem a força de um nome bíblico, se ter apresentado como um messias, é ele, cegamente, ainda acreditar nisso. E não se importar de sacrificar os portugueses, como se cordeiros fossem, para provar qualquer coisa a si mesmo. O Pedro não se está a lixar para as eleições, está a lixar Portugal.
P.S. A linha que separa o Pedro, de Lisboa, e o João, da Madeira, é que o primeiro quer resolver um problema que não criou e não consegue. O segundo quer ignorar o problema criado por si à espera que ele se resolva. No final, há sempre mais a uni-los que a separá-los, já que em ambos os casos os resultados são catastróficos.