As recentes notícias sobre as novas medidas de austeridade em Portugal para 2013 deixaram-nos todos à beira de um ataque de nervos. Quando poucos dias antes Draghi anunciou que o banco central europeu iria comprar dívida dos países em dificuldades financeiras, evitando o colapso da Espanha e da Itália, pensei que Portugal estava finalmente livre de ser o bom aluno vítima desta austeridade experimentalista que assola a Europa. Estava enganado, afinal por cá temos políticos que são mais fundamentalistas (leia-se estúpidos e cruéis) do que a Troika. Desculpem-me a linguagem mas se existe uma coisa que me tira do sério é a estupidez. Os anúncios feitos nos últimos dias foram uma demonstração de estupidez e crueldade atrozes. Não existe nenhuma evidência histórica que suporte a ideia que cortar radicalmente na despesa durante uma crise tenha algum efeito positivo. A este propósito recomendo a leitura de um artigo muito interessante de Ha-joon Chang no Guardian: "Austerityhasneverworked" (http:/gu.com/p/384f5). Tal como explica este professor de economia de Cambridge não funcionou nas várias crises de dívida do passado onde o FMI interveio e não está a funcionar agora na Europa. O corte excessivo dos défices de uma forma radical e demasiado rápida apenas torna o problema ainda mais grave. Os cortes nos benefícios sociais não tornam as economias mais competitivas. Pelo contrário a história demonstra que os países com maior proteção social recuperam mais rapidamente as suas economias. Foi assim na Europa relativamente aos EUA no período pós-guerra, é assim dentro da Europa com os países escandinavos. O que funciona é um estado eficiente que não atrapalha mas ajuda regulando e atuando onde os privados não podem nem devem intervir. O que funciona é uma população qualificada com estabilidade e proteção social onde todos têm as mesmas oportunidades e os melhores são promovidos. O que funciona é uma estratégia diferenciada, estável e duradoira que sobrevive aos ciclos políticos. O que funciona é uma sociedade livre, aberta e culta onde os jovens têm oportunidades e um papel importante no estabelecimento do equilíbrio geracional. Mas os nossos políticos estão paralisados perante o seu próprio dogma. Na Grécia a austeridade não funciona porque eles se recusam a aplicar as medidas da Troika. Em Portugal não está a funcionar porque fomos além do que tinha sido prescrito. Esta ideia peregrina que o problema não está na receita mas na precisão da dose do remédio. O remédio não está a funcionar e a solução não é continuar com o experimentalismo porque isso é simplesmente loucura - como dizia Einstein citado por Chang "loucura é fazer repetidamente a mesma coisa e esperar resultados diferentes". Mas a explicação mais provável não é que os nossos políticos estejam loucos mas simplesmente que estão a tentar preservar o sistema económico das últimas décadas. Esta é a cruel verdade, os nossos líderes não estão interessados nas reformas, não estão interessados em corrigir os erros do passado, estão apenas e somente a lutar para manterem o sistema em que nasceram, cresceram e prosperaram até chegarem ao topo. Compreendo a estratégia que Portugal não tinha outra alternativa a não ser cumprir o programa da Troika e demonstrar com sentido de responsabilidade que estava disposto a corrigir os excessos que nos levaram à ruína financeira. Confesso que até fiquei surpreso com a forma responsável e ordeira como vários partidos, sindicatos e associações patronais acabaram por aceitar um acordo civilizado que demarcou claramente Portugal do descalabro da Grécia. Penso que isto contribuiu muito para que todos nós tivéssemos interiorizado a necessidade de mudar de vida e corrigir os erros do passado à custa de alguns sacrifícios. Até aqui tudo bem e ninguém dúvida que o objectivo foi atingido, descolamos da Grécia e temos hoje um capital de reputação diferente. Os sacrifícios justificaram-se não pelos resultados mas pelo potencial de credibilidade e negocial que produziram. Mas no momento em que a Europa finalmente dá sinais de reconhecer o problema colectivamente e anuncia a compra de dívida dos países pelo banco central. No momento em que é claro que a austeridade não funciona em lado algum. No momento em que Portugal ganhou capital de confiança que podia utilizar para renegociar o acordo. Neste momento anunciamos de forma incompreensível mais medidas de austeridade que de acordo com as notícias são seis vezes mais do que o pedido. Lançando o país numa convulsão política que quebrou o pouco capital de confiança que tínhamos e que resultava da estabilidade política e social. É de uma estupidez atroz, de uma profunda crueldade e desrespeito pelos sacrifícios e pelas privações que as pessoas estão a passar. Meus senhores por favor deixem-se de experiências cruéis. Já perdemos qualquer esperança que sejam responsabilizados. Já não temos ilusões que não serão capazes de promover as verdadeiras reformas que se exigem e que justificavam os sacrifícios. Já aprendemos a lição que os lucros são privados mas os prejuízos públicos. Já nem sequer questionamos que vamos ter que vender o pouco que temos a interesses estrangeiros ou oportunistas. Não pedimos que assumam a responsabilidade de nada ou sequer se sintam culpados e durmam mal. Pedimos simplesmente que desapareçam, até pode ser de fininho e para um sítio paradisíaco. Desculpem o desabafo mas quem tem responsabilidades acrescidas também tem o dever de exprimir publicamente a sua indignação, nem que seja em nome dos que infelizmente não têm oportunidade de o fazer e sofrem muito mais em silêncio. Mas como dizia Oscar Wilde "quando um homem faz alguma coisa profundamente estúpida é sempre pelos motivos mais nobres". Raios partam!!! * Professor Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal

Nuno Nunes