Não tem muito tempo. O nosso país orgulhava-se de ter dos melhores matemáticos do mundo que conduziram naus e caravelas até civilizações num mapa desenhado pelos nossos navegadores, à descoberta do desconhecido. Tivémos então negociadores exímios que souberam impor, com o conhecimento, a reciprocidade e a palavra, uma nova ordem ao comércio mundial. O tesouro nacional era tão dourado que até o Papa se lembrou do Reino rectangular à beira-mar plantado e, prestando-lhe a devida vénia nas Tordesilhas, entregou-nos meio mundo em nome de Deus. Hoje, temos uma geração de matemáticos na política que não acerta uma previsão que seja. E quando mete finanças, pagamos todos. Foi assim com Teixeira dos Santos. É assim com Vítor Gaspar. No país cuja frota naval não tem um único navio-patrulha operacional para fiscalizar aquela que é simplesmente a maior Zona Económica Exclusiva da Europa. O que diria D. João II se soubesse que, em menos de meia dúzia de séculos, haveria mais mouros e espanhóis a pescar nos mares da Madeira do que portugueses? Que os seus sucessores afundariam a obra-prima da sua governação e que a nova política de exploração atlântica seria feita de negócios ruinosos com compras de submarinos pelo meio, num esquema de corrupção latente, enquanto a frota da Armada aguarda manutenção no Arsenal do Alfeite? O que diria se visse a independência financeira de Portugal ser ditada por um grupo de germanos da Baviera, num país que ainda estava por nascer? “Antes de vos pertencer, pertenço ao meu país”, sentenciaria porventura el-Rei?!

Hoje, o governo meteu água. Tanta que já ferve. Portugal vai passando nas avaliações da ‘troika’ mas os obedientes (estúpidos) alunos não se livraram de uma nova bordoada fiscal porque os governantes não acertam uma previsão que seja. Vem aí um alívio dos prazos para o cumprimento das metas do défice? Então é mais uma vaga com 13 medidas de austeridade bem cheias, se faz favor. Povo, estás triste? Triste está o Ronaldo! Nós somos a bola da selecção portuguesa de futebol que ontem bateu cinco vezes com a cabeça no ferro. Já ninguém tem cabeça para isto. E falo de quem nos governa. Foram erros de cálculo nos PEC’s, no apuramento da receita fiscal e na despesa pública. E erros de 'casting' como aquele de António Borges no anúncio da concessão da RTP a privados. Alguém votou em António Borges? Ou ainda o homem da cerveja, considerado pelo insuspeito Miguel Relvas a pessoa certa para presidir ao conselho de administração da televisão pública nacional. Mas, dizia eu, foram medidas de austeridade 'vendidas' com a determinação de que serviam para alguma coisa. Ao fim de quatro meses, não serviram para rigorosamente nada. Porque nada é rigorosamente governado. Entre cá em casa, ilustre imposto encapotado, sente-se à mesa cara medida inconstitucional, que nós por aqui andamos à conta das contas públicas. E como vai a senhora Taxa Social Única? Com dores de 7%? Mas o défice já tem carreira contributiva? Os portugueses são cobaias num banco de ensaios! Aquele anúncio da subida da tributação sobre imóveis superiores a um milhão e carros de luxo é puro ‘show-off’. Uma pequena tentativa de amostra de equidade fiscal que não chega para deitar água na fervura. Se a saturação de impostos já tornava contra-producente quaquer tentativa de retoma económica, o ponto de ebulição aproxima-nos agora perigosamente da Grécia. É que já ninguém aceita falsos moralismos políticos. E lições de patriotismo? “O patritotismo é o último grande refúgio do patife”.