Pensar que os outros ‘comem gelados com a testa’ é uma mania que está a crescer entre os políticos portugueses, sobretudo os que ocupam lugares de poder. Pelo que dizem, parece que acreditam que todos os portugueses são parvos – alguns são, é verdade, e só assim se explicam alguns resultados eleitorais – e que vão aceitar, sem pestanejar, a primeira alarvidade que sair da boca desses senhores.

Foi com esta ideia na cabeça que o primeiro-ministro se apresentou ao País para anunciar que, no próximo ano, perderemos mais um salário, para tentar compensar a incapacidade do Governo de reduzir o défice público. Tudo dito num tom de sacristia que enerva e com um esboço de justificações patético.

O maior descaramento foi dizer que o aumento do desemprego não se deve às medidas de austeridade cozinhadas com os incompetentes que representam a tal ‘troika’. Medidas que qualquer merceeiro sabia onde iriam acabar: em mais recessão e desemprego. Mas o primeiro-ministro, que pensa que somos todos tontos, quer convencer-nos que não é assim.

O desemprego cresce, segundo Passos Coelho, por obra do Espírito Santo – não confundir com o banco – e ninguém tem culpa. Talvez só os desempregados, por terem nascido neste País.

Esta mania de considerar que todos os outros são estúpidos atinge, na Madeira, a condição de epidemia. Do Chão da Lagoa, de onde sazonalmente saem as maiores barbaridades e teorias dignas de filme de ficção científica, veio a garantia de que, também aqui, ninguém tem culpa pela crise e pelo desemprego. Aliás, o número assustador de desempregados madeirenses é… culpa de Lisboa. Como Lisboa não tem culpa de nada… lá está o Espírito Santo.

Igualmente fantástica foi aquela tirada de humor de quem garantiu que a Madeira não tem nenhum buraco financeiro e todas as contas são transparentes, todo o dinheiro foi usado para fazer obras necessárias e melhorar a vida dos madeirenses. Dava para rir se não fosse uma tragédia.

Numa festa partidária que já teve melhores dias e muito mais gente, sobraram as tiradas repetidas, teorias de perseguição roçando o ridículo e faltou, como sempre, a coragem para reconhecer que, ao longo de três décadas, algumas coisas não correram bem e conduziram à situação dramática em que estamos. Mas para isso é preciso ter algum respeito por quem está a ouvir e a tal ‘mania’ não permite.

No Chão da Lagoa também sobrou a já conhecida criancice de uma parte da ‘jota’ que teima em seguir os passos de quem não tem nada para ensinar. Um caso perdido.