Estamos numa barca e a afundar-nos. Foi uma barca que nós construímos e que ajudámos a manter. A barca da economia de mercado, enfeitada com a eficiência, a competitividade e orientada pelo capitão Capital, ruma supostamente à abundância-para-todos, leia-se dinheiro-para-todos, mas talvez mais para uns do que para outros. Esta barca tem muitos buracos; os da corrupção, da especulação, da destruição de recursos naturais,... no entanto a barca mantém-se à tona, pois a ralé, com muito trabalho, despeja a água que jorra para dentro, de volta para fora da barca, e assim a viagem continua. Certo dia surgem uns buracos maiores. O capitão põe o pé na poça e alarma-se, perante a situação decide que a barca tem de perder peso para continuar a viagem em segurança! O capitão ordena ao seu ajudante, que está a Passos, para este se livrar de peso. Aquele que estava a Passos olhou à sua volta e viu muitas pessoas a fazerem peso. Houve muito clamor por parte de quem se viu jogado para fora da barca. Impotentes os excluídos apercebem-se que o seu capitão afinal é cego, surdo e insensível ao seu sofrimento, o capitão só se vê a si e quer todos a trabalhar para si. Em consequência da fatídica decisão do capitão, passaram a haver cada vez menos pessoas a retirarem a água que se infiltrava pelos buracos, no entanto o fascínio pelo capitão, mantém as que sobram cativas do destino ilusório com que este as seduz. E a barca segue mais leve, mas ainda e sempre, com buracos. Talvez solitariamente e com boas braçadas, se consiga chegar algures, mas a minha preferência vai para outra solução, uma que passa por agregar quem está disposto a pensar, discutir e tentar uma solução com um capitão alternativo. Talvez com a orientação do capitão tripartido amor-compaixão-sabedoria, consigamos rumar a barca a bom porto, ao vasto continente do bem-estar universal. É utópico? Talvez, pois nunca foi tentado. Para que outro sítio poderíamos querer rumar e com que capitão? Venham propostas!
Rui Almeida - Deputado do PAN na ALM