«As canções da Ilha do Porto Santo são consideravelmente mais interessantes do que as da sua vizinha Ilha da Madeira. Além de serem melodicamente mais variadas e musicais, são instrumentalmente, muitíssimo mais ricas, oferecendo exemplos notáveis da intervenção dos instrumentos nos seus prelúdios, interlúdios e finais.» Francisco de Lacerda (Maestro, compositor e musicólogo) em 1933 in «As canções da Ilha do Porto Santo» (Colibri Editora 1993). Muitas foram as personalidades ao longo do tempo que referenciaram o «Baile da Meia Volta» como a expressão cultural mais antiga da ilha dourada. Presente nas festas populares, casamentos, batizados, receções oficiais aos bispos, governadores ou outros ilustres visitantes, organizava-se também «meias voltas» aos sábados e domingos. Nestes, os rapazes e raparigas em idade de casar, deitavam os primeiros olhares trocando um passo de dança. Estes bailes com mandador juntavam transversalmente a sociedade: ricos, pobres, novos e velhos. Um convívio, um passatempo, mas também um momento de poesia improvisada entre homem e mulher (cantores) com ''requebres de improviso'' da rabeca, acompanhados por braguinha, rajão e viola de arame, no enquadramento final da voz do Mandador. Anne Caufriez (musicóloga belga) recolheu em 1982 muito do repertório tradicional, juntando 50 pessoas nessas práticas. Esse trabalho foi divulgado em congressos e seminários europeus, levando longe o nome do Porto Santo. O CD, fruto da recolha, foi editado com o apoio da Câmara Municipal do Porto Santo, em 2011...! Consolidados que estão dois cartazes da Ilha: Santos Populares e Festival Colombo, urge dar atenção a esta forma de música/dança, recreando-a pela população, antes que a mesma desapareça. Sinergias precisam-se localmente (escolas, Câmara, Casa do Povo, Grupo Folclórico, associações e particulares) para que num próximo Festival Colombo, o património oral saia à rua, praticado por todos. Que um novo olhar se debruce sobre o Porto Santo. O que é original - é único.

Vítor Sardinha, Músico