
Lembro-me que a primeira televisão que tivemos em casa era uma Telefunken, enorme, comprada muito antes do 25 de Abril de 1974 e que só captava as emissões da TVE-Canárias, em dias de bom tempo. Foi assim que vi os 'Pica-piedra', muito antes de conhecer o 'Flinstones'. Só mais tarde, em 1972, apareceu a RTP, a emitir entre o final da tarde e pouco antes da meia-noite. A preto e branco, porque a cor era coisa que só iria aparecer quase uma década depois. Os telejornais, com Maria Luísa, Armindo Abreu e o saudoso Ramos Teixeira, eram um misto de 'enlatados' enviados de Lisboa e criatividade - muita criatividade - da malta da Rua das Maravilhas. Bons tempos, em que ficávamos à espera, quase até às sete da tarde, para ouvir o hino da televisão e esperar que a emissão incluísse desenhos animados. Mesmo que fossem polacos ou checos, até sombras chinesas.
Passados precisamente 40 anos, parece que tudo andou para trás. A RTP-Madeira voltou a 'abrir' às 19h00 - o jovem director admite passar para as 17h00 - e perdeu muito do que tinha sido conquistado, ao longo de décadas. O argumento é o dinheiro, correcto sobretudo sendo público, mas é nestes momentos que quem tanto apregoa a defesa da Autonomia deveria intervir. Ainda mais porque a decisão veio de Lisboa, de uma administração que corta em tudo menos nos seus benefícios. E quem diz defender a Autonomia não tem qualquer problema em gastar milhões num jornal de propaganda.
Dizem que a RTP-M é para privatizar, mas não se compreende de que forma será possível tornar rentável um canal que, mesmo com uma situação de ausência de concorrência directa local, não consegue gerar receitas suficientes. Nem com preços de publicidade mais do que 'convidativos'. Pode ser que alguém tenha trunfos escondidos, sobretudo aqueles empresários que nos últimos tempos têm surgido mais perto da televisão da Madeira. A ver vamos.
As crianças madeirenses, felizmente, já não têm de esperar até às sete da tarde para começar a ver televisão. O problema, agora, é afastá-las de mais de uma centena de canais. Mas para quem acompanhou estes 40 anos da RTP-M custa ver este retrocesso.
Esperemos que seja só uma redução de tempo de emissão e que a criatividade informativa não se fique pela memória daqueles que estiveram no arranque, na Rua das Maravilhas. Esse retrocesso é que não seria desculpável. Nem seguir o modelo desta última Gala... que nem merece comentários.