Três semanas após os terríveis fogos de Julho, comparáveis ao lendário incêndio de sete anos prévio ao povoamento da ilha, e quando a natureza num sublime exemplo de regeneração começa a verdejar das cinzas, há que reflectir e questionar. Cenário habitual do estio nos últimos tempos, tudo indica a sua provável ocorrência futura, sempre que a tríade funesta de temperaturas altas, vento forte e baixa humidade do ar se aliem à imensidão de mato seco exuberante de uma paisagem negligenciada, facilmente inflamável fortuita ou criminosamente. Escasseia infelizmente o sentido ético do respeito pela natureza, pelo binómio virtuoso da dimensão pública da coisa privada e da dimensão privada da coisa pública, a dualidade recíproca essencial à sobrevivência colectiva, a que o bom senso chama de responsabilidade cívica. Recorrente nas últimas décadas, este incêndio foi porém diferente dos anteriores. Houve populações abandonadas à sua sorte. Como as remotas aldeias desertificadas do interior português, onde as estruturas do Estado estão a ser extintas em nome da racionalização de meios, deixando cidadãos órfãos de protecção. Foi assim em Gaula no passado dia 19 de Julho. Não houve bombeiros no combate ao pavoroso incêndio que, sem precedentes na memória dos mais idosos, a varreu do mar à serra. Felizmente, onde falharam as estruturas do Estado na defesa de gentes e bens valeu a generosa organização espontânea das pessoas, de vizinhos de perto e de longe munidos de coragem e genuíno espírito de cidadania comunitária! Ou o redescobrir da entre-ajuda e o tecer de laços de solidariedade na vulnerabilidade de outros tempos, antes do novo-riquismo agora decadente… É confrangedor o cenário envolvente a este concelho de Santa Cruz, a sala de visitas de quem chega de avião à ilha, deprimente cartão-de-visita e cartaz turístico. Mas o fogo permitiu deixar à vista a dimensão do abandono de inúmeros poios, essa histórica obra de engenharia agrícola construída com imenso sacrifício e trabalho árduo, legado para deixar aos filhos, outrora solo intensamente cultivado, esteio de sobrevivência de largas gerações e famílias de antepassados nossos, profanado pelas silvas do desleixo, e que o novo-riquismo das últimas décadas fez menosprezar em troca de vãs fábulas de riqueza, formas mais amenas de ganhar o pão ou obter lucros com especulação imobiliária… A vingança da natureza, face ao abandono suicidário a que tem sido votada? É já usual falar-se de uma irresponsável e leviana cultura do fogo. É comum ver queimadas agrícolas que por vezes se descontrolam, porque se ignorou o sensato ponderar das consequências. Esquece-se que o fogo não distingue nem respeita direitos de propriedade. E não basta apelar para uma maior eficácia da lei na punição dos infractores, sempre os outros; incendiários sempre houve e haverá. Todavia no cenário de negro que nos rodeia vislumbra-se - à mistura com lixo, a sucata da nossa vergonha civilizacional - oásis de verde, campos cultivados onde as chamas não entraram. Ir por aqui, agora que em tempo de crise se assiste a um retornar à terra e à agricultura? Desejável seria que se imolasse também a sobranceria, a arrogância, a leviandade, com que infelizmente se tem ignorado os alertas para a urgente e necessária inversão de rota no respeito pelo ambiente, e que a par do renascer do verde da vegetação que reanima da tragédia, se reaprendesse a ouvir o outro, a respeitar e acautelar a natureza, o nosso petróleo numa terra de parcos recursos. Com o renascer da seiva, é hora de questionar e agir. Uma geração desaprendeu o que dantes era sabedoria construída a partir do berço: o valor inestimável da terra, a generosidade multiplicadora do suor cultivado em pão, antes do cânone do desenvolvimento unicamente pela via da urbanização, cultura fomentada nas últimas décadas. O abandono da terra ao mato e à especulação imobiliária deu o resultado que temos à vista: incêndio e destruição deste vulnerável espaço insular. Onde os planos de emergência, de prevenção de catástrofes, o demarcar de zonas de risco? Temos bombeiros e equipamentos suficientes? Sim ou não meios aéreos? Que fazer com o mato que em breve estará aí viçoso ao redor das casas, pronto a queimar? Centrais de biomassa? O que se negligenciou no amanho da terra, sábia estratégia secular de sobrevivência e sã convivência com a natureza? Que equação entre as alterações climáticas, as mudanças no estilo de vida, a gestão e ordenamento do território, dos espaços florestais, dos parques e reservas naturais, das explorações agrícolas? Na hora do rescaldo, que se desejaria definitivo, mais do que fazer cumprir a lei no que à limpeza dos terrenos baldios diz respeito, mas cuja burocracia infernal se acomoda perfeitamente à incompetência, à inoperância, ao medo de mexer em clientelismos e perder votos, é preciso mais amor à terra, melhor cidadania e respeito pela natureza. Que das cinzas floresça a humildade, o bom senso, o sentido de responsabilidade colectiva, uma verdadeira liderança social e política profícua de sensatez desde a auscultação de sábios, ao processo de decisão e execução das medidas para o bem-estar comum.

Júlia Caré