É uma experiência que todos temos. Olhamos para o presente e para o futuro, tentando tomar as decisões mais sensatas, mas encontrarmo-nos perante grandes incertezas. Todos nós nos defrontamos com dilemas deste tipo, agravados ainda pelo facto das nossas decisões poderem, muitas vezes, influenciar as vidas de outras pessoas. O maior problema é a incerteza e a confusão reinantes que já não tornam simples a intenção de "fazer bem as coisas". É, portanto, impossível afastar as incertezas das quais depende o sucesso de uma decisão. No entanto, as decisões têm que ser tomadas. Não podemos esperar que desapareça a incerteza, a confusão e mesmo o medo. Sabemos que tudo o que nos puder ajudar a tomar uma decisão num tal ambiente, é valioso. Neste contexto, atrevo-me a afirmar que gosto das pessoas lutadoras, das pessoas ditas guerreiras, daquelas pessoas que, de vez em quando, vacilam, que, quando são traídas e magoadas, ficam claramente tristes. Gosto das pessoas que mesmo quando parecem não ter muitas hipóteses de vencer se empenham, são afoitas, vão a jogo e mesmo que percam o fazem de cabeça erguida. É verdade que, muitas vezes, temos a ideia que as pessoas lutadoras e guerreiras apenas pelo simples facto de serem isso mesmo, não têm dúvidas, nem medo. Porém, só os verdadeiros guerreiros é que respeitam o medo, isto é, olham para o medo e apesar dele são capazes de agir, de tomar decisões, de tomar um caminho. São pessoas que não fogem. Vivemos hoje, muitas vezes, num universo muito pouco humanizado, onde não se percebe que é perfeitamente natural que à medida que somos mais experientes temos mais medo. Não se trata de não medir os riscos. Isso não é um acto guerreiro mas é claramente um acto irreflectido próprio de algum deslumbramento que todos nós temos. Não se trata, neste caso, de fazer o elogio das pessoas "medricas". Ser um pouco "medricas" significa ter consciência das nossas limitações, ter consciência que não estamos a construir uma imagem mas estamos a vencer obstáculos. E é sobretudo quando lidamos com os nossos obstáculos que assumimos a atitude mais guerreira de todas. No entanto, o ambiente de hoje tem tanto "botox" em tantas áreas que, de repente, parece que quanto mais formos capazes de disfarçar mais optimistas nos tornamos, quanto mais iludirmos as nossas fragilidades mais guerreiros nos tornamos. Ora, acontece exactamente ao contrário, pois quanto mais iludimos as nossas fragilidades mais estúpidos ficamos. O verdadeiro lutador é aquele que, apesar dos obstáculos, estabelece um caminho porque vai atrás de uma convicção. De facto, hoje, falta convicção, falta fé às pessoas e não estou apenas a falar de fé no sentido religioso, mas de fé como resultado de um conjunto de actos profundamente amorosos de alguém em relação a nós que faz com que, no limite, tínhamos fé nas pessoas, na vida, no futuro. Não há dúvida de que é a convicção que faz com que nós sejamos capazes de quebrar barreiras. Todavia, criamos um universo tão positivista onde falar de convicção, ou mesmo de valores, de justiça, de fé, parece ser uma coisa do passado, absolutamente intolerável, conotado com um discurso conservador e piegas, que faz com que muitas pessoas fiquem, às vezes, quase envergonhadas em dizerem aquilo em que acreditam. Se ainda não vamos atrás das nossas convicções, podemos estar a vencer alguns obstáculos, mas ainda estamos longe de ser verdadeiramente guerreiros. A convicção é a única arma para vencer a incerteza e o medo.

Marco Gomes