Adaptação é a capacidade de responder a determinadas situações, resultantes de alterações de circunstâncias ou da posição em que nos encontramos, com vista a voltarmos a um estado de equilíbrio, ou sustentabilidade, equivalente ao existente à data do evento que sugeriu essa necessidade de resposta. Noutro formato, a adaptação pode constituir o leque de respostas que viabilizam uma existência estável num contexto completamente alheio, quer por mudança geográfica quer por mudança radical dos factores habituais num determinado contexto. É, esta última forma, o caso das situações pós-revolução. A primavera árabe, para não falar de coisas mais próximas, é uma boa ilustração deste último tipo de situação. Já a resiliência, socialmente falando, acaba por ser a medida dos limites até onde determinado colectivo pode ser levado sem que perca a capacidade de manter a sua identidade, que, livrando-se do factor perturbador, volta a ser visível enquanto marca indelével de um percurso histórico que também será capaz de incorporar todas essas situações extremas a que tenha sido sujeita. A lógica sugere que, quanto maior for a capacidade adaptativa, mais resiliente será um colectivo. Ou seja, a capacidade de mudança ou de contornar determinados obstáculos surge como uma garantia de continuidade, uma sobrevivência que, tendo custos, perdas e alterações mais ou menos significativas, garante uma existência futura. Fica por saber se essa existência tem algum sentido enquanto continuidade, numa lógica de memória colectiva e evolutiva ou se vale a pena, só por existir. Esse existir, mais que persistir, sempre pode ser encarado como um ponto de partida, que fica legitimado pelo, também, primeiro passo, da anterior existência, que, sendo remota, não escapa à probabilidade de múltiplos renascimentos. O anacronismo entre a consciência de uma necessidade de mudança, por via adaptativa, e a constatação dessa (ou de outra) mudança como resultado da resiliência natural dos sistemas sociais não permite aos actores, também sujeitos, a condução do sentido e intensidade do processo de mudança. Mesmo quando tal acontece, a complexidade dos factores determinantes, que se sucedem e se extinguem e renascem em ritmos inesperados e incontroláveis, não permitem respostas em tempo útil. Como tal, muito da adaptação, por sua vez, resulta em resposta fora de tempo, remetendo, novamente para a resiliência a possibilidade de nova experiência, por erro e tentativa, cujo resultado pode gerar pequenos ciclos de espera antes que se atinja nova estabilidade. Como planear, em tempo de mudança permanente, parece ser uma questão menor se pensarmos que as modalidades de planeamento tradicional requerem tempo que não está disponível. A inutilidade de uma situação de referência que antes de ser percebida já deixou de existir é também um obstáculo maior. E assim sendo, facilmente se aceita a navegação à vista e o acreditar no engenho e arte dos navegantes como a melhor das estratégias para a falta de estratégia. E é neste detalhe que a memória deixa de fazer sentido e se criam os vazios e as faltas de referência, aquilo a que alguns chamam cultura institucional e que, na prática, é o histórico dos nossos falhanços e sucessos, em formatos registados e consultáveis, passíveis de escrutínio. A destruição dessa cultura institucional disfarçada de reforma estrutural é capaz de ser a liquidação total e irremediável da capacidade natural de uma sociedade persistir e evoluir. Dessa liquidação, propositada e calculista, a adaptação e resiliência social, são os alvos fundamentais que, desaparecendo, abrem portas a uma nova cultura, muito perigosa que, esperemos, não tenhamos em breve que viver.
António Domingos Abreu, Biólogo