«O que me incomoda mais é o mau uso do território, que traz consequências de grande dimensão. Veja o caso da ilha da Madeira, o que lhe aconteceu com a sucessão de acidentes». As palavras do arquitecto Siza Vieira, numa lúcida entrevista no passado fim-de-semana ao jornal "i", constituem a preocupação diária dos madeirense que olham desconfiados para a ideia de "progresso" que nos venderam. O arquitecto deixa claro que o que se passou na Madeira existe obviamente no resto do país e que o mau uso do território «é muito mais grave do que o bonito e o feio». Os milhões de euros de fundos europeus de que a Madeira beneficiou e bem, foram em muitos casos mal utilizados. Estamos rodeados de obras sobredimensionadas (de que me abstenho de enunciar) sem qualquer relação com as reais necessidades da população, que alimentaram a indústria da construção civil, hoje na agonia do desemprego e do fecho de empresas. A arquitetura ao serviço das obras públicas serve para o ordenamento do território, realizando-se as obras essenciais em cada uma das áreas geográficas de uma região, tendo em conta o planeamento a longo prazo de crescimento previsto para as mesmas. As obras visam também uma harmoniosa distribuição da população pelo território. E aí a política seguida na Região deixa muito a desejar. As assimetrias são evidentes: só num dos 11 concelhos da Madeira, o Funchal, vive 42% da população madeirense. E se somarmos os dois concelhos vizinhos, Câmara de Lobos e Santa Cruz (em parte dormitórios da cidade capital) observamos que 71% da população está concentrada em apenas três concelhos da faixa sul. Se fossemos um barco, já teríamos afundado a estibordo.

Luís Sena Lino, Consultor de Marketing e Comunicação