A história é conhecida e até já foi recordada neste espaço, mas aplica-se ao assunto do momento em Portugal. Há alguns anos, no início da década de 1990, a DC Comics decidiu matar o Super-homem que foi derrotado por um tal de 'Doomsday' (Dia do Juízo) e até teve direito a funeral, com super-heróis de lágrima ao conta do olho. Mas o pior foi no mundo real, multiplicaram-se os comentadores a acusar a DC de destruir um símbolo dos EUA, criaram-se grupos de debate e protesto e toda a gente pedia a cabeça do presidente da editora. Até que veio a resposta em forma de pergunta simples: todos os que protestam, há quantos anos não compram uma revista do Super-homem? O 'homem de aço' acabou por ressuscitar, tudo não passou de uma boa jogada de marketing, mas ficou a certeza de que só damos valor às coisas quando as perdemos. Parece que é assim com a RTP.

Quando aquele personagem de nome António Borges veio anunciar a morte da RTP2 e a entrega a privados dos outros canais, multiplicaram-se os protestos. No caso do segundo canal, a extinção foi comparada a crime de traição à Pátria (o que até tem lógica), com comentários inflamados em defesa da cultura. Mas neste caso encaixa bem uma adaptação da pergunta do presidente da DC Comics: há quanto tempo não sintoniza a RTP2? Não é preciso responder.

É mais do que óbvio que o futuro da RTP tem de ser discutido e que as soluções não podem ser eternamente adiadas, mas a forma como ficámos a saber quais são as intenções deste Governo é que não é admissível, é um verdadeiro (mais um) escândalo.

É chocante que tenha sido António Borges a fazer o anúncio, com uma insensibilidade que só se explica com o seu currículo de protagonista da criação do inferno em que vivemos. Borges foi, até 2008, administrador do banco Goldman Sachs, um dos mais envolvidos nas grandes jogadas financeiras que conduziram a esta desgraça, andou pelo Citibank, BNP Paribas, foi consultor do Departamento do Tesouro dos EUA e é o consultor de Passos Coelho para as privatizações. Só boas companhias.

Um senhor que, por exemplo, terá declarado, em 2011, um salário anual, livre de impostos, de 225 mil euros, defendeu para Portugal uma redução urgente dos salários. Palavras para quê?

Para ele, a RTP, que nos dois últimos anos até deu lucro e reduziu substancialmente o passivo, é apenas uma questão de números e de seguir uma agenda que deve ter sido traçada pelo super-ministro Relvas: vende-se aos angolanos, mas antes despede-se metade do pessoal. E pensar que o PSD até queria este homem para líder. E não é?