Oito e meia da noite. "Da tarde", alguém sempre diz. A demora do dia cobre o céu de cores sofisticadas e intricadas, cuja precisão se esperaria encontrar numa caixa de produtos de cosmética (fuchsia, ametista, lápis-lazuli, verde-lima e outras tonalidades que tive de ir buscar ao Wikipédia). A areia de alguma forma reflecte tudo isso, a água repousando sobre a praia da forma delicada e fundamental com que se deitaria numa córnea. O mar, concretizando a genérica falta de ambição manifesta nas ondas de veleiro, desiste de imitar o que quer que seja e fica-se por um azul brando. Ninguém se concebe frágil o suficiente para não tomar um banho. Os astros antecipam-se à escuridão. Se procurarmos bem, encontramos um elemento de ridículo a fixar a paisagem à realidade. Um gordo a perseguir um cão. Um homem de meia-idade com uma vela ou papagaio à espera de um vento pária que se ouve mas não há. Três raparigas a esgotar cartões de memória a ver se sacam uma fotografia parecida à que outra amiga tirou no Chile. Mas não é o Atacama. É o Porto Santo, uma ilha caluniada apesar da abundância de finais de tarde destes. É sintoma, um apanágio de este ser um lugar em sinal contrário das expectativas da sociedade de informação e consumo. Não se ofendam ainda. Entre o Hotel Pestana e o Cabeço, há um totem do resultado de aplicar uma receita genérica e instantânea de "desenvolvimento" a um paraíso pessoal. O Colombus Resort é um mestiço de esqueleto e cadáver, um enxerto perverso da Mesopotâmia. Se a pergunta quanto ao nascimento de Colombo é "onde?", a pergunta quanto ao nascimento do Colombus é "como?". Se Colombo deu novos mundos ao Mundo, o Columbus interpõe-se entre nós e um certo Mundo, um retiro de pureza, inocência e, convenhamos, juventude. Ao arrastar o Porto Santo para a arena dos destinos com empreendimentos gigantes e inestéticos, o Colombus ignorou a falta de consensualidade e mercantilismo da ilha. Muitos são vitimados pelo síndrome do ilhéu, o sentimento de inquietude pela aparência de não ter com quem estar ou para onde ir. A minha experiência, de resto, avança o síndrome como responsável pela frequência e qualidade do pugilato nas Docas. No entanto, o Porto Santo é um lugar extraordinário para quem sabe estar sozinho. Um lugar sem e-mails de trabalho, sem a urgência de colocar a vida num disco externo ou a ansiedade topo-da-pirâmide-de-Maslow de estar constantemente sujeito a uma forma, ainda que rasca, de entretenimento. Aqui sente-se essa espécie de paz, com uma sensibilidade anormal à superfície - como se a pele pensasse - um intervalo da mesquinhez quotidiana. O tipo de paz que o Mundo nos ensina a desdenhar. O tipo de paz que não se procura num sítio como o Colombus. O foco nos defeitos do Porto Santo cria uma insatisfação insaciável, um impulso autofágico de construir, de "infra-estruturar", de banalizar. Certo desenvolvimento, em cisão com a população, parece responder à fúria de viver de um turista com habitat noutras latitudes. No entanto, esta não é uma crónica sobre os vícios evidentes da Ilha Dourada, mas sobre as suas virtudes insuspeitas - aquilo que ela tem de único e notável - e sobre a necessidade silenciosa mas igualmente premente de preservar e não tocar. Não há mal nenhum em não ter opções quando a que nos resta é a melhor. Por mérito ou sorte, aqui sou feliz. Nisso, não estou só. Nem aqui nem no Mundo.
Pedro Fontes