Juan José Millás, escritor espanhol, escreveu uma crónica no suplemento cultural do jornal 'El País' que depressa se transformou numa espécie de manifesto de todos os que ainda têm força para se indignarem com o rumo de uma Europa e de uma economia que se basta a si mesma e que funciona como se os homens fossem um pequeno pormenor dos Estados e da máquina que faz andar o mundo.
A grande virtude do texto de Millás é a linguagem que usa, sem subterfúgios, sem o politicamente correcto, sem eufemismos. E o que diz Millás é muito simples, diz que quem nos governo, na política ou na economia, não se interessa verdadeiramente por nós, a não ser na exacta medida em que possamos ser transaccionáveis como tudo o resto.
Não lhes interessa se acordamos cedo para ir trabalhar, se estamos doentes, apaixonados, se nos morreu alguém, se temos filhos, se temos emprego, se passamos fome, se sorrimos, se choramos. Se existimos, enfim.
Millás, na crueza imensa do seu texto, diz que "a economia financeira é o inimigo da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental brinca com o corpo de uma criança num bordel asiático." Ou seja, brinca com o valor do nosso trabalho, classifica o que fazemos, põe um preço e um rótulo e retira-nos toda a humanidade para que assim seja mais fácil a abstracção em que tudo isto se transformou.
Ao ler o texto de Millás, ficamos com aquela sensação desconfortável de nos vermos como essa criança no bordel asiático, mas também sentimos o quanto é preciso não nos habituarmos à desumanidade que nos querem impor. Se o último reduto for a indignação, a pena que escreve sem medo, a voz que grita até doer, então é preciso continuar a fazer isso mesmo, esse movimento de resistência capaz de nos salvar da insanidade que nos ameaça.
A resistência tem de ser global, porque também é dessa grandeza o ataque. Se nos ficarmos, mansos, calados, mortos, seremos esse pormenor humano em que nos querem transformar.