Sempre foi assim: quando os governos não têm dinheiro seguem um de três caminhos principais: aumentam os impostos, vendem património ou retiram direitos. Foi quase sempre assim. Mas agora dão-nos a experimentar um novo modelo de governação e atalham os três caminhos de uma assentada só. Neste momento, sem qualquer manifestação de pudor, obrigam-nos a viver com o aumento de impostos, a venda de património e a anulação de direitos. Com a agravante de que, nos últimos meses, o caminho tem sido o inverso: primeiro retiraram-nos direitos e regalias sociais e profissionais, depois aumentaram-nos os impostos e agora vendem património que ainda nos falta pagar. Sei que nesta terra parece tudo normal. Já o disse e escrevi e já o ouvi de muita gente. Que é normal esta apatia social e política, este encolher de ombros, esta resignação que se confunde com um adormecimento colectivo, como se esta sociedade vivesse hipnotizada de tanto curvada num agradecimento sem fim a quem não fez mais do que devia. Um logro! Quem esteve no poder nas horas boas, são os mesmos que lá estão nestas horas más. A diferença é que no tempo em que jorrava dinheiro todos tinham ideias fantásticas, planos mirabolantes, projectos para fazer ainda mais dinheiro, promessas de investimentos que nos dariam a independência e obras e mais obras e túneis e mamarrachos e igrejas e centros cívicos e festas e mais festas. Agora, que o dinheiro não vem e descobriram a careca de quem nos governa, as inaugurações deram lugar a visitas, sumiu-se o alcatrão, as ideias foram-se, os planos acabaram, os projectos não passaram disso mesmo. Ficaram as promessas, os ridículos acenos à independência, os túneis, as estradas, os mamarrachos e as festas. A que se acrescenta um desemprego assustador, um desespero generalizado e o aeroporto como a porta de saída para esta crise a que nos trouxeram. Mesmo assim, a maioria parece satisfeita. Já não tanto como antigamente, mas ainda resignada. Já abana a cabeça, esboça uma crítica, faz uma ameaça baixinho, mas não passa disso. No fundo, e com honrosas excepções, continuamos a comer e a calar, alegremente distraídos com as férias do presidente que vai fazer mais uma revisão constitucional e que, para entreter os mais incautos, volta a falar em referendos sem pés nem cabeça. Entretanto, no meio de tanto falar para não dizer nada, lá lhe foge a boca para a verdade. E o mesmo presidente que há dois ou três meses dizia: Não vendam nada! Vamos resistir, é o primeiro a começar a vender. E pior: parece que vai vender a preços simpáticos o que ainda nem acabámos de pagar. Ainda mal refeitos dessa estranha mudança de planos com a venda a pataco de bens que eram essenciais e agora não servem para nada, temos que levar com mais um brutal aumento no preço dos combustíveis. Mais um. E isto promete não ficar por aqui. Porque de uma coisa tem o governo a certeza: o povo é sereno. O povo paga. Sempre foi assim.