"Diga ao Padre José Luís que eu conheço um!" Era a resposta de um amigo meu a uma pergunta formulada pelo ilustre sacerdote, neste mesmo DIÁRIO, a propósito dos incendiários: "Será possível haver algum Nero na Madeira?" E o meu amigo explicava-se: "Eu estava num acto público, tipo inauguração, no Club de Golf do Santo da Serra - você era então o presidente da Câmara de Machico - e o tal sujeito acercou-se do mirante, viu o extenso vale de Machico e exclamou: a minha maior alegria era ver aquilo tudo a arder lá em baixo". Então decidimos, o meu amigo e eu, estudar a personalidade do Nero, o sanguinário imperador de Roma, entre os anos 54 e 68, da nossa era. Eis algumas notas colhidas nos historiadores romanos Suetónio, Tácito e Dião Cássio: Era um homem ambicioso, mal visto pela nobreza romana, mas ao gosto do povo que o estimava por querer baixar impostos, fazia grandes obras, ginásios e teatros, participou nos jogos olímpicos e "ganhava todas as competições devido à sua condição de imperador e ao suborno dos juízes", desfilava nas festas e bacanais, chegou mesmo a instaurar as "Quinquenália Neronia", festas públicas em sua honra, "esbanjou dinheiros públicos nos Jogos e muitos projectos de construção ", deixando o império em situação de bancarrota. A quem se lhe atravessava no caminho mandava matar, sumariamente, como aconteceu aos assessores e tribunos Palas, Rubelinus Plato, Faustus Sula. E mais tarde à própria mãe. Por infeliz coincidência (como sucede com quase todos os Neros) ficou órfão de pai em criança, foi adoptado pelo tio imperador Cláudio e, por via da mãe Agripina, genealogicamente ligada aos imperadores, o rapaz foi galgando até chegar ao trono, em prejuízo de um outro legítimo sucessor. Por se ter arrogado poderes do Senado e nunca lhe ter devolvido a autonomia, o mesmo Senado destituiu-o. Coberto de vergonha e orgulho, fugiu de Roma e, para não ser preso, pediu ao seu secretário Epafrodito que o assassinasse. Considerando-se o único importante artista do império, exclamou ao morrer: "Qualis artista pereo" - que grande artista perde-se agora! Dizem os historiadores que "o reinado de Nero é associado à tirania e à extravagância". Ao terminarmos o breve bosquejo, o meu amigo e eu fechámos os compêndios de história, olhámos um para o outro e com um misto de sufoco e ironia dissemos: "Ele há coisas fantásticas!... Reincarnação? Clonagem? Maldição? Esclareça-se que Nero ficou marcado por ter mandado incendiar Roma (foi o seu maior prazer) e daí ter culpado os cristãos que, depois por sua ordem, foram queimados em lume vivo nos jardins do Vaticano, no ano 64, enquanto ele próprio se passeava cantando grotescamente ao som da harpa. Ficou-nos a nota final do historiador: "Depois da sua morte, o Senado mandou eliminar o nome de Nero dos muitos monumentos e placas da capital do Império".
Martins Júnior