Até há poucos anos, o mês de agosto na Madeira não tinha surpresas. Já se sabia que ia ser exatamente igual ao do ano anterior, que por sua vez não tinha destoado do agosto que o precedera. Muitos madeirenses optavam por visitar destinos invariavelmente exóticos e/ou eróticos, férias de sonho que frequentemente eram pagas às prestações durante o resto do ano. Mas basicamente o que a maioria fazia era mudar-se de "armas e bagagens" para a ilha vizinha, passando depois uma ou duas semanas a encontrar as mesmas pessoas e a manter as mesmas conversas, só que em calções e chinelas. As ruas do Porto Santo quase intransitáveis, devido ao excesso de viaturas e ao défice de civismo, combinação fatal mas sempre repetida; a confusão nos supermercados (agora já não se pode dizer no plural, pois não, Pingo Doce?), e nos restaurantes, devido ao excesso de fregueses e ao défice de espaço. Mas a praia, ah, a praia sempre teve aquela magia especial, principalmente na altura do cortejo: era um espectáculo bonito de se ver, como o povo gostava de acenar ao Senhor Presidente, e de tentar identificar o máximo possível de penduras, e eram sempre tantos…Os turistas continentais adoravam cumprimentar o Senhor Presidente, tirar uma foto com ele para mostrar lá na terrinha, e nunca perdiam uma oportunidade de dizer convictos: - "Nós lá é que precisávamos de ter um Alberto João, pá!" Os jornalistas da capital da República iam em peso para o Porto Santo, que no mês de Agosto era a capital nacional da "Silly Season" - "que bojarda é que ele irá dizer hoje para nos abrir o Telejornal?". Gloriosos tempos do Bar do Henrique e da Universidade de Verão, com o Reitor Morna e as tiradas anti-Diário de Notícias, anti-Cavaco, anti-Sócrates, anti-Lisboa, anti-gamente era assim. Agora não. O trânsito e a confusão continuam, mas o resto da festa perdeu o brilho: na praia são poucos os que acompanham o Passeio Real pelo Areal, e verdadeiros "puxa-saco" são só um ou dois. O povo ainda acena, mas são cada vez mais os que apontam o dedo para dizer que o Rei vai nu (o que é um manifesto exagero, porque vai de calções). Alguns velhotes saudosistas tentam ensinar alguma coisa aos netinhos: - Olha, aquele senhor que vai ali, quando o avô era novo aquele senhor era um grande político, e fez muito pela Madeira. - E agora avô? - Oh meu querido, agora infelizmente ainda pensa que faz… Tristemente, o melhor que se arranjou este ano para agitar as hostes foi voltar a desenterrar o fantasma do separatismo. (Esta é a frase que a comunicação social do continente gosta de usar, mas que faz pouco sentido, primeiro porque os fantasmas não se enterram, e segundo porque o separatismo nunca teve funeral nesta terra). Só que já ninguém lhe liga (talvez só os doentes crónicos, como o Vicente Jorge Silva e o Miguel Sousa Tavares). Duvido que mereça mais que um esgar de comiseração do Professor Marcelo. E agora lá vem outra vez o referendo à autonomia. Mas aí alto e pára o baile! Chega de brincar com coisas sérias: referende-se o apoio ao sorvedouro do J.M., referende-se o obsceno "Jackpot", referende-se a lei das incompatibilidades… Ou melhor ainda, siga-se para eleições antecipadas e que seja o povo, através do voto, a referendar se ainda quer manter estes fracos guardiões da autonomia. À falta de melhor, termino com um excerto, "ligeiramente" alterado, do hino da Mocidade Portuguesa, não porque me identifique com o ideário subjacente, mas porque continua a haver muitos por aí, que apesar de tudo, continuam cantando e rindo. "Lá vamos, referendando e rindo, Levados, levados, sim, Pela voz de som tremendo Da dívida - clangor sem fim... Lá vamos, (que o sonho é lindo!) Marinas e monos erguendo, Buracos, crateras abrindo! Alva da Luz do Alberto, Que fez túneis e rotundas, Mas deixou-nos um deserto! Querer! Querer! E lá vamos! Na dúvida, referendamos A Madeira que se afunda!"
Raúl Ribeiro