Luís Guilherme Ferreira A pinheira do pico, como era conhecida, era uma árvore centenária. Ficava no quintal do meu amigo Dr. Rui Fontes e nós chamávamos de Pico. Os Habitantes que lá viviam eram conhecidos por José do Pico, Helena do Pico, Gabriel do Pico, etc… Dali se deslumbra uma das mais belas paisagens sobre o Funchal, para mim a mais bela. Esta árvore que conheço muito bem desde os meus tempos de menino e moço, faz-me lembrar a minha infância onde nas férias subia ao Pico para, à sombra da pinheira, desfrutar da paisagem e observar de perto o cantar dos pássaros, tais como: a toutinegra, o melro preto, o pintassilgo, o canário, o corre-caminhos, o verdelhão, o papinho, o bis-bis, o tentilhão, o pintarroxo (pássaro que há muito tempo não vejo), etc… Aí também observei pela primeira vez a toutinegra de capelo, que em toda a minha vida só vi quatro indivíduos desta espécie. Pela altura do Pão-por-Deus apanhava as pinhas verdes e trazia para casa onde, depois de minha Mãe tirar do forno a amassadura do pão, incluindo o delicioso pão de milho cozido sobre uma folha de couve, colocava-as lá para abrirem e torrar os pinhões. Feita esta operação as pinhas ficavam todas abertas, parecendo rosas, com os pinhões à vista, semelhante a dentes, parecendo que estavam a rir para mim. Depois era o partir dos pinhões para tirar o miolo torrado que e muito saboroso. Para os partir escolhia uma parte dura e plana e nada melhor que a soleira da porta da cozinha. Algumas das cascas dos pinhões ficavam encravadas na parte inferior da porta e esta ao abrir fazia uma barulho estridente; dava uma dor de dentes semelhante a um choque eléctrico. Nesta altura entrava minha mãe em cena a ralhar-me porque estava a estragar a porta. Assisti de perto, com grande mágoa à morte da pinheira do pico, pois moro a uns 800 metros abaixo, provocada pelo incêndio que deflagrou nessa zona no dia 22 de Julho passado. O fogo começou pelo mato rasteiro e saltou aos arbustos. Depois de consumir os arbustos soltei um suspiro de alívio pensando que a minha pinheira estava salva. Mas fiquei atónito quando já não havia lume, por perto, a Pinheira do Pico começou a arder com pequenas faíscas, lembrando o fogo de artificio, talvez motivado pela alta temperatura que se fazia sentir à volta dela. Quando passei pela junta de freguesia de São Gonçalo, sugeri à C.M.F. que fosse atribuído o nome de rua da pinheira a uma das ruas da urbanização. Fizeram-me a vontade e lá está a "Rua da Pinheira" para perpetuar a existência daquela árvore centenária que morreu devido à maldade dos homens. Fico grato à Câmara Municipal do Funchal.