Há muita coisa característica das festas populares ou arraiais, para além da animação musical. A gastronomia é um desses exemplos. Neste caso, como é natural, têm havido muitas alterações ao longo do tempo. À excepção da tradicional espetada em espeto de louro, que se mantém mais ou menos inalterada, a restante oferta gastronómica é recente. Refiro-me, por exemplo, ao frango assado, ao bolo do caco, aos cachorros quentes, etc. No que toca às bebidas a situação é semelhante. O vinho seco com laranjada para os adultos e a laranjada para os mais novos também caíram em desuso. Aparentemente nada há de anormal nesta situação. "São outros tempos", diz muita gente, mesmo com responsabilidades públicas. Alguns por um lado apoiam essas importações e simultâneamente defendem que se deve fomentar a economia de proximidade. Num dia destes, numa conversa sobre este tema, lembrei-me que nos arraiais poderia continuar a existir esse tipo de economia. No norte da ilha, nesta época existiam alguns negócios característicos, dinamizados por pessoas com carisma e com personalidade forte, que marcaram algumas gerações. Lembro-me, por exemplo, do Sr. Francisco, mais conhecido pelo "Salomé da Ribeira da Camisa", que chegava ao local da festa, no sábado ao principio da tarde, com um cesto de vimes às costas cheio de pepinos verdes e apetitosos. A rapaziada ia logo atentar alguém para comprar um pepino rachado em 4 ou 6 bagos, com sal grosso, para comer, na festa claro. Ir ao arraial e não comer um bago de pepino do "Salomé da Ribeira da Camisa" era como ir a Roma e não ver o Papa. Isto é a chamada economia de proximidade. O "Sr. Salomé da Ribeira da Camisa" trabalhava as suas "caseiras de baraços" para que fossem produzindo ao longo de todo Verão, colhia o produto e vendia directamente ao consumidor final. O dinheiro dos forasteiros que vinham ao arraial ficava na localidade. Era uma das suas fontes de rendimento, talvez a principal. Nos cachorros quentes, e outras iguarias de hoje, a matéria-prima, desde o pão ao ketchup, passando pela salsicha, são importados, e o negócio, salvo uma ou outra excepção, é feito por pessoas de fora. No local da festa, para além do lixo, fica muito pouco para a dinamização da economia local.
Joel Freitas - Presidente da ACIN