Digo-o, com profunda tristeza, que a vivência nestes últimos anos na Região Autónoma da Madeira tem sido uma catástrofe perfeita. Senão vejamos… As cheias de há dois anos, com todo o seu cenário de morte e destruição; os incêndios de há dias com as suas sequelas nos bens pessoais e nas alterações morfológicas, com consequências profundas não só na paisagem mas também na proteção da natureza em possíveis enxurradas futuras; o buracão da divida financeira oculta que deixou a Região em estado de falência, não fosse a assistência do Governo Central; os recuos sucessivos na afirmação do espírito democrático com limitações constantes à liberdade de expressão, aos direitos de opinião na construção, legitima, de uma alternativa democrática ao caos político que se vive, não só no cercear dos direitos fundamentais das pessoas, como na arrogância como se quer ser poder e manter esse poder à força; nas bolsas de fome e pobreza como há muitos anos não se viam na Madeira. Ciente de tantas dificuldades, de tanta maldade e cinismo dos que governam, o povo madeirense, possuidor de uma invejável forma de energia que nunca lhe faltou: a de não ceder perante a adversidade pois as suas melhores qualidades são a expressão de uma verdade que nunca desfalece. Ao lado desta gente que é gente, alguns outros pensam que só se é gente quando se é igual aos outros, quando se pensa e age como os outros - noção válida sobretudo para os supostos anticonformistas; o medo da verdade, ou seja, das diferenças, que uns e outros nos definem quando estas diferenças escapam às figuras estabelecidas; a pressão da moda, entenda-se, os snobismos culturais que distribuem etiquetas, ditam recompensas e heresias; a cegueira dos optimismos coletivos aliada a uma espécie de tribalização da sociedade composta por um mosaico de comunidades, divorciadas entre si, das quais resulta a descaracterização do convívio social, outro trágico empobrecimento. Em suma, tudo isto nos leva à desumanização de toda uma cultura de viver. Mais que um fenómeno meramente político, uma realidade social que urge ultrapassar, uma necessidade de mudança que se impõe. De outro modo, arriscamo-nos a ficar prisioneiros de ideias feitas, reféns da convivência alheia, exemplo perfeito dos limites da liberdade condicionada e daquilo que, pelo andar da carruagem, a todos nos espera e que Ortega y Gasset escrevia como o "Servilismo das Elites". É na reconciliação, que nasce do consentimento e do sacrifício mutuo, que os povos saberão encontrar a verdadeira fronteira do seu viver mas, também, é verdade, que a verdadeira morte é tudo isto: tudo olhar com um olhar de náufrago. Todo o nosso viver é assim perpassado por um pessimismo sem idade, oculto e reprimido, agonia nossa sem amanhã, que é o quotidiano de muitos milhares de madeirenses. Curioso como, aqui, entre nós, a pequenez mental e a modéstia social não se evidenciam com esta necessidade de mudar. Neste momento, falta-nos tudo, mas, principalmente, futuro. Do empobrecimento constante ao desemprego avassalador, passando pelos acidentes físicos, geográficos e meteorológicos, tudo nos acontece. Quando a democracia é posta em causa, resta-nos fixar o nosso olhar em nós próprios porque as instituições, já, por si, estão em causa. Quando o político tudo sacrifica ao êxito da sua ambição é porque tudo é contrário ao homem livre. Quando quem nos lidera renunciou a tudo menos à vingança e avança indiferente para o abismo, olhar fito no vazio, passo lento e seguro, sonâmbulo, guiado apenas pelo eco da sua quimera, mas no fundo de si mesmo, movido, como qualquer homem, por uma insatisfação de ambição e desforra, tudo está perdido porque não há pior desgraça do que prolongar a morte ainda em vida… Hoje em dia, os grandes líderes têm de enfrentar decisões monumentais em tempos inesperados; as suas ações têm implicações muito além das suas próprias organizações, e são julgadas incessantemente e impiedosamente pela opinião pública e pelos meios de comunicação social. Alberto João Jardim não é um caso virgem. Com mais de trinta anos de governação, Alberto João já o devia saber: os gabarolas não são populares. Se formos realmente leais, devemos deixar os outros contar a história… No início do século XXI, num tempo em que a dignidade humana e a liberdade estão em perigo, sem a nobreza de espírito, a cultura desvanece-se e tudo está em causa. Sem liberdade para pensar de maneira diferente, falar de maneira diferente, ser diferente, ter diferenças de opinião - sem tais liberdades, todos os outros valores ficam indefesos. A liberdade e a verdade não existem uma sem a outra. Cada vez mais cego pelo seu próprio absolutismo político, que quer manter viva a mentira, Alberto João Jardim está prisioneiro, já o disse, ao seu próprio drama, que é "ignorar que a História é trágica". O tempo é a essência. O tempo da democracia não está ainda ultrapassado. O que se passa é que não é possível o exercício da democracia sem democratas…

José A. Roque Martins