A cada dia que passa somos confrontados com sinais evidentes de uma crise sem precedentes na Autonomia madeirense. É o flagelo do desemprego, que atinge milhares de famílias, é o regresso da emigração, é a pobreza que toca a cada vez mais gente, é a entrega de casas e carros aos bancos, é o regresso forçado à terra para uma economia de subsistência, é o aumento brutal dos impostos, é o definhar do tecido empresarial, o fim de muitas pequenas e médias empresas e até de algumas que julgávamos consolidadas, é a aplicação cega de um conjunto de cortes que nos atingem a todos, como o que vem incluído no pacote laboral, são as taxas moderadoras na saúde, é o aumento do custo com o ensino. E o rosário está longe de terminado mas serve apenas de exemplo de uma austeridade que toca a todos. A que o Estado chama todos a pagar. E a que, no caso dos madeirenses, o Estado e a Região nos obrigam a pagar duplamente. E porquê? por causa da leviandade de uns quantos e da distracção de milhares de madeirenses. Por ironia do destino, entre muitos deles estão os que agora mais dificuldades enfrentam.
Mas este quadro nada simpático não se aplica efectivamente a todos os portugueses e muito menos a todos os madeirenses. Lá diz o ditado que não há regra sem excepção. E cá está a esmagadora maioria dos madeirenses para o confirmar. Mais uma e outra vez assistimos, escandalosamente desinteressados, a manifestações de um esbanjamento descarado do que é de todos nós. Dois exemplos muito concretos dessa despudorada falta de respeito para com os outros madeirenses: a casa de férias do Governo no Porto Santo e o Jornal da Madeira. São exemplos gastos, mas, por isso mesmo, volto a eles. Porque gastos, gastam-se todos os dias e gastam-se através do que é de todos e não apenas dos que fazem, desses bens de todos, bens de uso pessoal. Por acaso alguém esclarecido tem dúvidas de que a casa do Governo no Porto Santo apenas serve a alguns membros do Governo e seus convidados? Por acaso alguém esclarecido tem dúvidas de que o Jornal da Madeira apenas serve ao presidente do Governo e seus protegidos ou a uma Diocese vergonhosamente acomodada? Claro que não.
E se dúvidas há, baste que se atente um pouco à realidade que nos entra pelos olhos dentro. Quem nos pede, e ao mesmo tempo nos impõe, sacrifícios são os mesmos que vão de férias para Porto Santo a um custo irrisório que não é permitido ao mais pobre dos cidadãos contribuintes desta terra. Ninguém consegue casa no Porto Santo a preços como os que consegue o Governo. Nem mesmo oferecendo-se uma família inteira para ir ao areal 'trabalhar' um bocadinho todas as tardes como diz que faz o Governo. Da mesma forma, a nenhuma instituição é permitido o acesso que tem o Governo e parte da Diocese a um jornal que custa quase 15 mil euros ao dia. Tudo isto seria, como já foi, apenas resultado de uma política legitimada pelo voto do povo, não fora o caso de estes dois exemplos acontecerem agora, numa altura em que nos mandam cortar em tudo, mas a que alguns, poucos, se esquivam desses mesmos cortes.
Agora, essas decisões políticas, ainda que continuem legitimadas pelo voto, são manifestações grotescas e aberrantes de uma governação que dá sinais de fim de ciclo mas que se recusa a ver o que quase todos os outros já viram nos últimos meses: que acabou a festa. Que a autoridade, quando exercida em cima de um pedestal e longe dos demais, não passa de um descaramento que se mistura com laivos de autoritarismo.