O conceito é internacional e deveras interessante. O programa enquadra dois vetores: por um lado, permite ao artista convidado criar e desenvolver um projeto e por outro, interagir com a comunidade de artistas do espaço geográfico e cultural que o recebe. As residências podem ser de curta duração (2 a 4 semanas) ou mais alargadas (3 a 6 meses). Não envolve custos extras, uma vez que o artista não aufere rendimento pela sua prestação, mas sim alojamento, alimentação e a logística (espaço para trabalhar) necessária á prossecução do seu mester. Artistas emergentes, reconhecidos pela crítica, artistas estabelecidos e com reputação internacional, são todos elegíveis a este tipo de clausura significante nas suas próprias vidas e currículo. A troca de experiências entre artistas e organizações culturais são altamente promissoras nestas iniciativas, enquadrando-se também pela sua leitura multicultural, contemporânea e eclética. Aqui, o diálogo e a partilha tomam lugar e sentido. Músicos, compositores, atores, escritores, designers, curadores, realizadores, bailarinos, entre outros, trazem o seu projeto, desenvolvem-no no espaço e contexto, sendo esse o contributo para custear o programa Artista em Residência. Um pouco por todo o mundo o conceito tem-se alargado e desenvolvido. Gostaria no entanto de relevar o que se faz em Portugal. Desde 2008 o Pralac (programa de residências artísticas na cidade de Lagos, Algarve) alberga anualmente um total de 20 artistas. A promoção da música, escultura, pintura, cerâmica, arquitetura, cinema, museologia, entre outros, tem lugar na antiga cadeia de Lagos, espaço que ganhou uma nova dimensão. As exposições, concertos e performances dos residentes têm uma presença assídua do público e comunidade educativa. Existe um apoio da Presidência do Conselho de Ministros e da Direção Geral das Artes. A Fundação Casa de Mateus, em Vila Real, tem apadrinhado também artistas em programas que vão de 15 dias a 6 meses e, por fim, a Ilha das Flores, nos Açores, tem um projeto semelhante para as artes plásticas, visuais, performativas e literatura (http:/www.terraincognitacenter.org/). A Madeira tem todas as condições para a consolidação de um modelo original nesta área. Não confunda no entanto o caro leitor, o que aqui se expõe, com outra prática, há muito comum na região. Um conceito que eu designaria por ‘’artistas em residencial’’. Neste caso os artistas, geralmente em fim de carreira, são reincidentes, no ‘’alojamento’’, sem que o seu projeto acrescente potencial ou valor à nossa comunidade, artística, educativa ou cultural. O seu ‘’retiro,’’ muitas vezes suportado pelo erário público, em nome da ultraperiferia em que vivemos, é considerado deveras importante para a promoção da nossa terra. Ultraperiféricos, sim. Acríticos e acéfalos é que não.
Vítor Sardinha - Músico