É, uma vez mais, tempo de fazer um intervalo nas múltiplas e diversificadas actividades do nosso complexo quotidiano, de pôr de lado as preocupações e entregar-se a uma "viagem" que nos leva à descoberta da nossa condição de viajantes ou peregrinos pelo mundo. Mesmo que sem um caminho bem definido, essa viagem liberta a mente e a inteligência de todos os bloqueios, permite redefinir as nossas prioridades e reabilitar o humano da nossa natureza. Vem esta reflexão a propósito da mesa redonda realizada no Centro de Estudos de História do Atlântico, com o tema "A Viagem", que teve lugar no passado dia 05 de Julho. Nesse encontro todos os presentes foram desafiados a reflectirem sobre a "viagem" enquanto movimento com um propósito, enquanto percurso (físico ou vivencial e psicológico) enquanto caminhada que trilha novos caminhos, enquanto aventura da vida. De facto, todos somos convidados a fazer essa grande viagem da humanidade que não é senão a viagem da própria vida, uma viagem bem real e não algo situado numa dimensão imaginária ou ficcional. É verdade que as pessoas fazem essa viagem de diferentes formas, uns vão de autocarro ou comboio e vão apenas para locais próximos, não saem da sua zona de conforto, não se libertam dos bens materiais que os aprisionam. Outros que possuem carro vão um pouco mais longe, aventuram-se por trilhos pouco frequentados, ousam ir mais além do que as rotinas repetidas. Outros ainda podem ir de avião para lugares mais distantes, numa viagem maior, rumo a um horizonte mais definitivo, onde se pode experimentar o eterno dentro do temporário em que estamos inseridos. Estamos, portanto, a falar de uma viagem que implica, entre muitas outras coisas, encontrar o sentido da vida, fazer a re-significação de quem somos, estabelecer um encontro com a divindade. Este encontro único apela, desde logo, a pessoa a um encontro consigo próprio, a aprofundar o conhecimento de si mesmo e a nascer de novo, ganhando um novo nome: "filho de Deus". Assim, surge o convite a realizar essa viagem, ou seja, em que cada um descobre quem é e faz a experiência da caminhada para a terra prometida, na certeza de que a viagem não se faz só. Trata-se da caminhada da Humanidade de braço dado com a Divindade, de uma peregrinação espiritual que permite entrar no eterno bailar da Trindade, onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo abrem a roda para incluir a Humanidade nessa dança. Essa viagem faz-se com referências, seguindo uma direcção e numa partilha com os outros que caminham ao nosso lado e com o totalmente Outro que sempre nos acompanha. Relembro o texto do Êxodo onde " o Senhor ia diante deles, de dia numa coluna de nuvem, para lhes mostrar o caminho, e de noite, numa coluna de fogo", para referir que no momento em que se aceita fazer essa viagem não só a divindade caminha ao nosso lado, mas o Deus que fez a viagem da encarnação (em Cristo) é transportado para o mais íntimo de cada um que inicia essa viagem: "a ele viremos e nele estabeleceremos morada" (Jo 13, 23). Assim, porque a viagem não se faz só, temos de procurar um lugar próximo à janela, desfrutar cada uma das paisagens que o tempo nos oferece, sem se assustar com os abismos, nem com as curvas que não nos deixam ver os caminhos que estão por vir. Neste corre-corre da vida, de compromissos aos milhares, de agendas cheias, corremos o risco de não perceber a importância da viagem que fazemos todos os dias. É preciso desdobrar o mapa e, nesta viagem, arranjar tempo para vivermos as coisas simples da vida que nos fazem felizes, para estarmos ao lado das pessoas que nos amam e que amamos, sem nos deixar abater por coisas que não merecem importância. Tirar dos obstáculos, dificuldades e críticas ensinamentos que nos fazem amadurecer e seguir em frente mais fortes. E sem esquecer que essa viagem não se faz só.

Marco Gomes - Director Pedagógico da APEL