Nos tempos que correm, a expressão "ter a crise à porta" tornou-se uma companhia quotidiana e conformista em cada lar. No que diz respeito à cultura, referimo-nos ao investimento em programas e bens materiais culturais, o disco a tocar é sempre o mesmo, bem que as vozes muito mais desafinadas aos ouvidos. Muitos pensam que basta um Festival Literário ou uma Festa do Livro ou um concurso literário aqui e ali para alimentar e satisfazer o espírito educativo e cultural do homem, todavia, não é o suficiente e o necessário para atrair os jovens e, até mesmo, muitos adultos. A verdadeira essência dos programas culturais deveria passar pelo incentivo dos mais jovens, particularmente em idade escolar, na participação em tertúlias culturais, literárias, históricas e políticas, que fomentariam, indubitavelmente, o verdadeiro espírito cívico e de cidadania. Isto não acontece... por falta de informação nas escolas? Em casa? Ora, perante o cenário actual (falo no aumento do custo de vida com o agravamento do poder de compra, consequente detrimento da qualidade de vida e de todas as mentiras que nos foram contadas, em busca não de um sorriso como quem conta uma história de encantar, mas sim em busca de um voto que vale o poder), o sector cultural é condenado quer pelas prioridades definidas pelas famílias, como a satisfação das necessidades mais primárias de subsistência, quer pelo Orçamento de Estado, com o aumento do IVA dos produtos culturais. As sucessivas mutilações na cultura são constantes: menos apoios nas escolas; cortes em programas culturais; menores orçamentos para a atualização das bibliotecas; suspensão de assinaturas de jornais e revistas literárias nas bibliotecas públicas; descida de escalão social e consequente perda de apoio nos manuais escolares, que se traduz numa maior despesa familiar e menor orçamento para leituras não obrigatórias. Que tal reavaliar o papel do Estado e da família na vida cultural?

Fernanda Castro, Colaboradora da AAUMa