Quando se falou em exportar aquilo que produzimos e um dos artigos seria o pastel de nata, houve um gozo político e jornalístico generalizado, mas não entendi qual é o real problema de ficarmos conhecidos como o País do Pastel de Nata! O tal bolo, tradicionalmente conhecido como pastel de Belém, porque nasceu nessa localidade, na origem duma receita nunca revelada, fabricado pelos monges do Mosteiro dos Jerónimos, durante uma época de crise - tal como agora - com o intuito de ganhar algum dinheiro, embora o dito mosteiro, ficasse á época - nos anos 1800 e tal - situado num terreno descampado longe de Lisboa, onde o mais fácil acesso, era realizado através dum barco a vapor. Também somos o país do Galo de Barcelos, esse galo com uma história famosa, onde se revela em pormenor, que, após ter sido cozinhado - e já muito bem assado, presumo eu - conseguiu exibir o seu estridente cantaroléu dentro da travessa da refeição, salvando por milagre um viajante espanhol da Galícia, condenado á morte pela forca, quando tinha sido injustamente sentenciado pelo mesmo juiz, que o ia de seguida digerir, num principesco repasto - assim refere a lenga-lenga da conhecida lenda, que aconselho a ler. E também, musicalmente, somos o país do Fado, como o Brasil é do Samba, e a Argentina do Tango. O Fado, a nossa melodia tradicional, com uma origem incerta - alguém alvitrou que teria nascido dos cânticos mouriscos do bairro da Mouraria - mas ao certo sabemos que, a sua iniciação - a sua primeira cantadeira - foi Maria Severa Onofriana, que tocava guitarra e cantava, no Bairro da Mouraria em especial na rua do Capelão. Era uma das personagens mais badaladas do "face-book" da época - também lá para os anos 1800 e tal - por ser a assumida amante do Conde de Vimioso. Esse nobre e famoso galã da época, era um cavaleiro hábil na arte de tourear, provocando o gáudio dos amantes das touradas na Praça de Touros do Campo de Santana, intervalando amena cavaqueira, junto da sua malta, fã e amiga, num tal Café do Joaquim Silva - onde a sua querida Maria Severa habitualmente tocava e cantava, alguns fados com enredo alusivo á sua fervorosa paixão. Conhecida origem tem o Samba, surgindo na zona da Baía, trazido de África pelos escravos angolanos e congoleses, evoluindo para aquela bela expressão musical, com ritmos inescedíveis e percussão invulgar. Já agora o Tango, música e dança que vem da baía de Buenos Aires e Montevideu, uma mistura bem composta de drama, paixão, sexualidade, agressividade mas fatalmente triste, dançado inicialmente por dois homens - daí as expressões características de olhares opostos e rostos virados, sem olhar um no outro. E então, depois destas três hipóteses, qual delas acham melhor para ajudar o nosso ego e melhorar a nossa fama de europeus meridionais indisciplinados?? O Fado, o Galo de Barcelos ou o Pastel de Nata? Se bem se lembram, o tal país que nos controla do calcanhar até á nuca - considerado o motor da economia da Europa - que faz sempre as contas para ficar sempre mais rico, enquanto os seus parceiros amigos estão sempre cada vez mais pobres ... e pior ainda ... sempre mais endividados, é conhecido como o país da cerveja e das salsichas, ou seja "bier und wurst"! Temos outro país europeu conhecido como o país das Túlipas - que nome tão cândido!! - país que, em tempos remotos - mais exactamente no tempo das naus catrinetas - "levava-nos" o ouro, prata e joias, trazidos de terras africanas e asiáticas, e não consta na sua história qualquer alusão a essas pilhagens infames. Podemos ser também conhecidos como o país dos "Recursos e Prescrições", já que, em território português, um fulano que pratique um crime, que diga, repita e "bata o pé" que não o fez - mas o certo é que o crime ocorreu - é condenado com prova feita, depois mete um recurso, e mais outro e outro recurso, espera todo esse tempo "cá fora", finalmente o processo prescreve e não chega a "ir dentro"! Não valerá a pena referendar um nome para o nosso país, acho que não se justifica; sem rodeios, acho que podemos ser o País do Pastel de Nata,...e fica melhor do que outras opções, como sermos o País das Rotundas, por onde andam carros e motas a "andar à roda", sem rei nem roque!
José Manuel Morna Ramos