“Então e a menina é licenciada?”. A pergunta não me podia parecer mais fora de contexto, a meio de uma conversa onde estava a tentar chegar a acordo sobre o aluguer de um espaço em Coimbra. Apeteceu-me responder que garantias é que a minha condição de ‘doutora’ (há conceito mais provinciano?) me tornaria uma inquilina mais cumpridora nos pagamentos?”. Ou um simples: “O que é que o senhor tem a ver com isso?”, mas refreei. Afinal estava a tentar baixar o valor da renda e queria mesmo fechar negócio. “Sou sim, em jornalismo”, balbuciei. O senhor parece ter ficado mais aliviado e não escondeu o sorriso quando lhe dei o meu cartão de visita.

Ri-me com o caricato episódio. E pensei: “Típico da cidade dos doutores”, que, entre outras coisas, tem ensinado aos que lá se formam a destrinça entre os doutos e os outros, os pata rapada.

Mas pelos vistos isto não é uma coisa circunscrita à pequenez do interior ou das ilhas. É comum a um país, que tem a obsessão do canudo. Não do saber – que não ocupa lugar – mas do diploma, não interessa como é conseguido. Casos como o do Dr. Relvas ou do engenheiro Sócrates são o expoente máximo. Não é grave que, em ambos os casos, os protagonistas tenham tentado acabar os seus percursos académicos; o que é indecoroso é a forma pouco transparente como o fizeram, mesmo que legal. Porque passa a ideia de que os políticos podem fazer tudo, inclusivamente, pedir o favorzinho para mais facilmente chegar a ‘doutorzinho’, neste país cada vez mais pequenino.

Mas pior: Parece confirmar que só se chega a grandes cargos políticos com um histórico de mentira, que até pode ser inocente na génese, mas que não o é na consequência.

A formação, por si, não chega. Que o digam os milhares de licenciados no desemprego. É importante, contudo, para nos tornar cidadãos melhor preparados e de mente mais aberta. Mas há coisas que a Universidade não ensina, ou não teríamos um doutor de Coimbra a ofender os adversários com designações que certamente não honram a instituição que o formou.

Alguém tem dúvidas das competências (para o bem e para o mal) do ministro Relvas? Alguém põe em causa que este governante sabe muito? Foi o canudo que o tornou mais arguto na sua relação com a comunicação social, por exemplo? Ou na sua habilidade para a diplomacia com Angola e Brasil? Já toda a gente sabe das capacidades (para o bem e para o mal) do número dois do Governo e este episódio só vem demonstrar mais uma vez que Relvas, o Dr., aprendeu muito na vida. E, imagine-se, até teve o bónus de ver essa aprendizagem reconhecida por uma Universidade.

Parabéns, Dr. Relvas. Mas ponha os olhos nesta terra: Não é efectivamente o canudo que faz de um político um bom governante, nem tampouco um ser humano melhor ou mais educado. Há coisas, como sabe, que só a vida ensina, e que não carece de diploma.

PS: O país dotoures há muito que sabe que o corte nos subsídios de natal e férias dos funcionários públicos é ilegal. Mas insistiu para ter ordem do Constitucional para chegar ao bolso de todos os portugueses, podendo chutar a responsabilidade dessa decisão para uma entidade éterea. Mas os doutores do país também sabem que a receita está a falhar e a falhar em grande. De que precisam mais para mudar de rumo?