Acabou o efeito anestesia do futebol, com o Euro'2012. Voltámos aos noticiários com a realidade nua e crua. As notícias, de âmbito internacional, nacional ou regional, surgem quase todas com dois denominadores comuns: a situação de amanhã ainda vai ser pior que a de hoje, e os cérebros a quem confiámos a gestão do interesse público estão a revelar-se autênticos 'bluff' incompetentes, uma grande maioria, e desonestos e trafulhas, muitos.

Não serve de grande consolação, mas é verdade que a situação na Madeira tem muitos paralelos por esse mundo fora, obviamente também com grande incidência em Portugal continental: uma sociedade dominada pela esperteza desenvergonhada de quem detém os pequenos e grandes poderes, perante uma estranha e inconcebível apatia do contribuinte comum. Até um dia...

O cenário descrito pode ser consubstanciado com inúmeros exemplos. Aqui, em Lisboa, no centro da Europa. Vou poupar os leitores a esse exercício, não com pena deles, mas porque sei que um grande número de pessoas continuaria imperturbável, como tem estado, renovando dia-a-dia uma tolerância incompreensível e sobretudo imerecida.

Prefiro centrar-me na Madeira e nalgumas figuras públicas secundárias, que julgam estar a escapar entre os pingos da chuva. Desde logo convém recordar que 'figuras secundárias', aqui, são todas para além do nosso 'rei sol'.

Como se sabe, e temos visto vezes demais, amontoam-se os exemplos ridículos, todos centrados na prepotência e na arrogância déspota do todo poderoso. Um poder que tem muito de fictício, de inexistente, de irreal. Mas que continua a servir de justificação a muito boa gente para não se incomodar, nem preocupar-se com o dia de amanhã ou com o futuro próximo, precisamente aquele 'timing' em que contam ser chamados para serem eles os novos-velhos senhores dos pequenos e grandes poderes.

Que se poderia pedir a estas figuras secundárias, perante a parte real da ameaça e do despudor de um velho inimputável e senil, que bem pode nomear e desnomear ao ritmo e ao sabor daqueles tiques sucessivos que o tempo lhe trouxe? Creio que ninguém lhes exigiria, aos 'secundários', a afronta gratuita, o desrespeito por quem lhe estendeu a mão e uma série de benesses. Mas, mesmo que isso envolvesse algum risco pessoal, esperar-se-ia um mínimo de decoro, de amor próprio. Um sinal de reprovação, por mais pequeno que fosse. Um sinal concreto em defesa do interesse público, por uma vez que fosse, em detrimento do tradicional interesse pessoal.

Cada caso é um caso. Na nossa Região temos essa vantagem (ou será desvantagem?) de todos nos conhecermos razoavelmente bem. Se a isso juntarmos percursos diferentes, mas constantes, de mais de 20 anos, então reforçamos a legitimidade para estas reflexões. Que nos permitem questionar a capacidade para liderar seja lá o que for, na fase seguinte, se agora nem conseguem esboçar um simples gesto de coragem.

Por tudo o que aqui ficou dito e subentendido, é evidente que ninguém pode levar a mal que estejamos - eu pelo menos estou - a tomar nota da ausência de atitude, da coragem que não existe, da responsabilidade que eu julgava haver. E como tenciono continuar por cá, a fazer notícias e a escrevinhar opiniões, não me coibirei de recordar os mais distraídos. Até lá, continuarei a pactuar com palmadas nas costas e a deixar-me enganar com incentivos discretos, como se não estivesse a perceber o que nos rodeia.