Trago a fisga no bolso de trás E na pasta o caderno dos deveres Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz De escolher o melhor dos dois saberes… Rio Grande Com a nova revisão curricular do Ensino Básico a partir do próximo ano lectivo, o mote remete para o pedagogo Rubem Alves e identifica-se com as suas "caixa de ferramentas" e "caixa dos brinquedos". Ele explica que "as ferramentas são conhecimentos que nos permitem resolver problemas vitais do dia-a-dia. Os brinquedos são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma." Como o caderno dos deveres e a fisga da canção em epígrafe? E acrescenta: "o que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprenderem os conteúdos dos programas oficiais." Talvez os milhares de universitários altamente qualificados - com ferramentas de luxo, mestrados, doutoramentos, - e, suprema perplexidade, sem hipótese de fazer uso delas no nosso país, percebam um pouco disto! Em nome do "conhecimento estruturante" e da "sensatez pedagógica" (?) o Ministro Crato apresentou a sua versão de gramática da escola. Mais uma vez entende-se que os complexos problemas do nosso sistema educativo vão resolver-se reformulando o currículo, suprimindo disciplinas, dando mais horas à super Matemática, e ao super Português - em detrimento de outras - as Expressões, as Artes, - em turmas de 30 alunos (26 a nível regional, diz-se), generalizando exames nacionais a partir do 4º ano de escolaridade, o que colhe aplausos na praça. A selecção académica como regulador social, restaurador da autoridade perdida dos professores? Ou a realização dos estereótipos de escola de qualidade e dos preconceitos de muitos quanto aos males da escola? Assim de empreitada, para todos, como o anterior tão criticado Estudo Acompanhado e afins... E pretende-se também introduzir formações vocacionais (?) já no 5º ano. E o Secundário, agora obrigatório, fica como está? Com alunos que não querem saber da escola obrigados a lá ficarem até aos 18 anos? De uma coisa podemos ter certeza: a indústria dos explicadores privados irá florescer e os livreiros inundarão o mercado com versões de "o essencial" do programa, testes e provas modelo, que as famílias irão adquirir para que tudo fique bem sabido e treinado para os exames, o arquétipo do rigor e da excelência da escola. E de certeza que com turmas de 30 alunos florescerão os conflitos o que afectará a qualidade da escola pública. Mas quem se preocupa, com isso na hora de cortar em tudo o que é do Estado? De uma assentada mata-se todo o saber, incipiente é certo, das metodologias de projecto, do trabalho de equipa, da cooperação e interdisciplinaridade, as competências transversais que as resoluções europeias para a educação do futuro, recomendam dever constituir 50% do currículo escolar. Retrocede-se ao saber disciplinar específico, aos conteúdos estanques, a matéria para passar o exame. Faz-se tábua rasa de avanços da investigação em Psicologia Educacional, em Sociologia e Ciências da Educação que os snobs e ignorantes rotulam de eduquês: a imensa diversidade que caracteriza o ser humano, os diferentes tipos de inteligência, ritmos e etapas de desenvolvimento, as variáveis relacionadas com as origens sociais dos alunos, as desigualdades e contextos sócio-afectivos, as formas organizacionais e o clima da escola, as práticas de sala de aula que condicionam a capacidade de aprender e o sucesso educativo, para mais em turmas de 30 alunos, etc. E que aprender, como amar, não se conjugam no imperativo. Concorda-se com a pertinência de se repensar a dispersão curricular do 3º ciclo - o "bazar curricular", com cerca de 15 disciplinas - onde se chumba em quantidades massivas. Importaria ir além das reformas a que temos assistido e que continuam a ignorar, menosprezar e desconfiar da escola e da sua capacidade criadora de, localmente e num exercício responsável de liberdade, de verdadeira autonomia sem retórica, desenhar e gerir percursos curriculares diversificados e dignificados, construtores de saberes de sucesso, à medida das necessidades e preferências das diversas comunidades educativas, mediante possibilidade de escolha de disciplinas ao nível da escola, sem prejuízo dos conteúdos e "conhecimento estruturante" de que fala o Ministro. Não há uma só maneira de fazer a escola e há já suficientes exemplos no terreno que bem se poderia replicar. Alguns com quase 40 anos e com provas dadas, como a Escola da Ponte! É um facto que as nossas escolas se confrontam com alunos com historiais de retenção repetida, absentismo, absoluto desinteresse e consequente comportamento desviante, alguns já sinalizados pelas CPCJ, prenunciando percursos de delinquência, a marcar passo no 5º ou 6º ano, a aguardar os 16 anos para só então poderem enveredar por vias alternativas que o sistema entretanto criou para salvaguardar uma aparência de escola para todos. E que fazer quando um aluno não tem "fome" (Rubem Alves) para o "menu" dos "conhecimentos estruturantes" oficiais? E quem disse que a arte, a música, a dança, o teatro, as actividades artesanais não são "conhecimentos estruturantes"? É mais fácil deixá-lo ficar, desmotivar-se, pois é mais barata a repetência do que o apoio individualizado? E porque não diversificar o "menu", partir dos brinquedos e das fisgas para chegar ao caderno dos deveres, às ferramentas e ao melhor dos dois saberes da canção? Não seria isto "sensatez pedagógica"?

Júlia Caré