João G. Querido Diário: num certo dia soalheiro no nosso belo Funchal, eu e a minha mulher decidimos dar um mergulho nas águas tépidas do nosso arquipélago. Eu sou um dos tais "queques" que tem a sorte de poder frequentar uma das diversas estâncias privadas (vulgo "clubes") com acesso ao nosso vasto oceano (sim, porque na nossa ilha é muito difícil molhar os calcanhares sem ter de pagar uma taxa!). Como tal, tentei dar o tal mergulhinho, mas visto estar à cunha, optámos por escolher uma dessas instituições funchalenses, a praia de Santa Maria (ao pé da Barreirinha para os mais distraídos). Embora não tenha dado o dito, já que esta última estava também à pinha, fiquei agradavelmente surpreendido pelo facto de não ouvir linguagem colorida durante a minha estadia. Não escutei um único palavrão daquelas gentes do Funchal, enquanto nadavam entre os sacos de plástico e preservativos vindos de alguma ribeira, qual bocadinhos de massa numa sopa de legumes. Surpresa porquê? Passo a explicar. Nas múltiplas excursões pela minha estância, habituei-me a ouvir uma espectacular panóplia de alarvidades vindas das criaturas bem nascidas desta ilha, vulgo "queques", tribo aliás a que pertenço, com toda a modéstia. As capacidades de inter-relacionamento desta juventude é tal que os próprio profissionais que honestamente trabalham neste espaço têm um pavor mortal da chegada do Verão e como ele o fim da época de exames - "isto fica um inferno" dizem eles. Tive o previlégio de presenciar a interacção de uma destas criaturinhas com um empregado de mesa (muito educado por sinal) e fiquei horrorizado tal foi a bestialidade e arrogância do imberbe adolescente. Qualquer dia usamos carros da policia como urinóis. Imagine-se! De facto, se esta será a elite dominante, estamos, como se diz em inglês: "tramated!" Querido diário, obrigado por escutares o desabafo de um queque.