Os trabalhadores da TAP vieram a público denunciar a falta de equidade nos cortes salariais. Acho que a comissão de trabalhadores faz muito bem em bater o pé e decidir por a descoberto a monstruosidade social que são as fortunas que migram todos os meses do erário público para as contas dos administradores da transportadora aérea. Deveriam, aliás, todos fazer o mesmo. Aos profissionais que mantêm mais de mil aviões em rota por dia no espaço aéreo nacional ceifam-se os ordenados, aos administradores mantêm-se as fortunas e aumentam-se as gratificações. É o ‘tira lá, dá cá’, o ‘tiki-taka’ da promiscuidade política entre o público e o privado. Em nome da crise e sob o denominador comum da sustentabilidade financeira do país, fazem-se as habituais contas de raizes quadradas. Usam-se sistemas e equações. Tudo para subtrair. Tudo para que quase todos percam um pouco de muito. E no fim, somam sempre os mesmos. No fim, a classe média assume sempre o preço alto em nome do supremo interesse comum da contenção, da redução do défice. E quando as águas acalmam, eis que, por detrás da cortina, surgem surpreendentes medidas excepcionais e excêntricas, pela mão de clientelismos e de conluios que continuam a contaminar os topos das grandes empresas públicas como escaravelhos nas palmeiras.

Nem é preciso ir mais longe para ver outras pragas do género, crimes de lesa-patria tão ou mais grotescos. O Jornal da Madeira é, talvez, o caso mais paradigmático do quanto uma empresa pública pode ser parasitada por este tipo de vermes. Mas há outros. Ontem mesmo, o PSD-Madeira foi confrontado com uma proposta de redução de 30% no famoso ‘Jackpot’ (a mesma que já havia sido apresentada pelo CDS) e insistiu em não abdicar de um cêntimo dos 5 milhões de euros das subvenções para financiar os partidos com assento parlamentar. Na mesma sessão, o mesmo PSD-M pretendia debater e aprovar, com carácter de urgência, uma lei orgânica que visava reduzir custos de funcionamento da própria Assembleia, prevendo cortes nos vencimentos dos funcionários públicos. Ou seja, cortar é preciso, mas só nos outros.

Ora, que especificidade regional e que interesses dos madeirenses está a Assembleia Legislativa da Madeira a defender, se concede assim, tacitamente, um estatuto especial aos deputados e aos seus partidos, colocados ao nível de uma classe super-priviligeada e, portanto, imune à contenção financeira, quando desata a pulverizar a população madeirense com um aumento de impostos sobre quase todos os bens, se lhes congela e reduz os salários, se despede, e se deve tanto ao ponto fechar empresas e de conduzir mais gente para o desemprego, se condiciona o acesso à saúde, se diminui os benefícios fiscais, se corta as prestações sociais e as comparticipações na saúde, na educação, nos transportes? Se isto não é um autêntico tratado de menoridade à inteligência do eleitorado madeirense...

Mas estas inchadas e insaciáveis laranjas regionais diferem bastante do PSD nacional. É bom lembrar que os cortes nas subvenções começaram em pleno PEC III, quando a maioria dos portugueses nem fazia ideia do que era a ‘troika’ e ninguém imaginaria que Alberto João Jardim já tinha escondido centenas de facturas. Em Agosto de 2010, PSD e PS acordaram uma redução de 10% do valor das subvenções públicas para os partidos políticos e para as campanhas eleitorais. O corte transitório vigoraria até Janeiro de 2013 mas, em Abril último, o partido de Pedro Passos Coelho comprometeu-se a prorrogar o prazo até 2015. O texto do projecto lei já está concluído e prevê também um corte de 10% no financiamento aos partidos, o que significaria uma poupança de 10 milhões de euros. Deverá ser aprovado antes das próximas eleições autárquicas.

Na Madeira, não tenhamos ilusões, a prioridade cimeira é alimentar a máquina do PSD-M. As outras vêm depois. Importante mesmo é haver dinheiro para a propaganda no instrumentalizado ‘JM ‘e no pasquim ‘Madeira Livre’, é haver música pimba no palco do planalto. Espetada no braseiro, vinho e poncha nas barracas. Já não há dinheiro para investimentos, inaugurações. Tudo murcha à volta deste governo, mas a prioridade é evitar que o lagar seque. É ir fazendo de conta que se governa… que a democracia não é a de um regime absolutista, que a autonomia não emigrará jamais.