Tive um sonho estranhíssimo. Absurdo, porventura. Medonho, sem dúvida. Sonhei que estava algures, em plena Idade Média, no meio de um feudo qualquer em bancarrota, devido à megalomania do seu senhor que, habituado à boa vida, não admitia o descalabro que criara e, pior, se propunha a sair dele a expensas dos seus vassalos. Eu era um deles e encontrava-me de cabeça perdida a tentar achar forma de pagar os pesados tributos exigidos por esse suserano, pançudo por sinal, que, a troco de um voto duvidoso de proteção, me levava tudo o que eu tinha, impedindo-me de ser feliz. A felicidade, aliás, era vã nesse lugar de trevas, onde as palavras de ordem eram trabalhar e pagar. O status quo do feudo legitimava-se na pregação do dualismo alma/carne, ficando a primeira redimida através do sacrifício descomunal imposto e do trabalho sem recompensa e a segunda, a carne pecadora, sem hipótese de transgressão. Porque, simplesmente, não tinha como ceder a vontades mundanas. Faltava-lhe meios para se entregar à gula, à calaça, à diversão. O prazer, na verdade, não era deste mundo ou, pelo menos, estava interdito a gente como eu que nascera para engordar uma casta de senhores pançudos que, supostamente, nascera para proteger gente como eu. E que gente era eu? Por acaso, num gritante anacronismo onírico, eu era exatamente quem sou, uma mulher da classe média que vivia exclusivamente do seu trabalho e que, se calhar, por ser horas de ir trabalhar, acordou desse sonho estranhíssimo, porventura absurdo, sem dúvida medonho. Acordei, dizia eu, com o alívio de quem se vê restituído dos seus direitos porque acredita viver num Estado democrático que não sucumbe à vontade irresponsável de um qualquer suserano porque se apoia nos princípios de uma constituição que zela pelos interesses dos cidadãos. E, assim sendo, cheia de ilusões, preparei-me para ser feliz, ainda mais por ser dia de ordenado, quiçá o único do mês em que alguém de bem se atreve a ser extravagante. Bastou-me, no entanto, olhar para o recibo do vencimento para me lembrar que, afinal, as coisas não são bem assim. Faltava-me o subsídio de férias como, em Dezembro, já me faltara o suposto "subsídio de natal". Faltava-me também, e para o meu assombro, o subsídio de refeição. Ou seja: Junho trouxera o ordenado mais baixo do ano, pois, teórica e paradoxalmente, não houvera férias para receber a dobrar e houvera férias para não usufruir do subsídio de refeição. Indecente, pensei eu, mas real como real e indecente é também, continuei a pensar, a filosofia que, sorrateiramente, o Estado vai assumindo a pretexto da famigerada austeridade, numa lógica de autodesresponsabilização e, sobretudo, de exploração dos poucos que trabalham neste país, a classe média. A sangria já se iniciou há algum tempo e, talvez por isso, está a ganhar contornos cada vez mais sórdidos com situações em que já é preciso pagar para trabalhar. É verdade. O Estado reduz ordenados, subtrai presumidos "subsídios" que mais não são do que ajustes de vencimento, impõe a prestação de serviços não remunerados, agrava arbitrariamente impostos, inventa outros e, enquanto tal acontece, tem a lata de exigir que os seus funcionários suportem despesas inerentes ao exercício das suas funções. Tira-lhes direitos, acrescenta-lhes deveres. Ele é que não dá nada. Somos um país moderno, burocrático, de gente rica. Agora tudo está na net; agora todos têm computador e impressoras. Quem quiser trabalhar que vá à net e imprima em casa. Pague o papel, a tinta e o que for preciso, porque o Estado está nas lonas. E faça-o se quiser, claro está, porque, se não, leva nota negativa pelo dever incumprido. O Estado deixou de ser "de direito" e transformou-se num suserano pançudo e tirano que, devido à sua megalomania, tomou as piores decisões políticas, conduzindo o feudo ao total descalabro. Agora quer sair dele a expensas dos seus vassalos. Gastou, esbanjou. Fez a festa, partiu a loiça e agora varre os cacos. Apela à austeridade para redenção da alma e purificação do corpo que, sem dinheiro, não tem como ceder às vontades mundanas, apenas ao trabalho. Não protege os seus vassalos, lixa-os. E eu, um deles, encontro-me de cabeça perdida. Acordei, afinal, para perceber que o sonho continua.
Eker Sommer