Sem excepções, quando alguma entidade pede um parecer jurídico não quer uma opinião imparcial, pede uma justificação para aquilo que considera certo ou que vai ao encontro dos seus interesses e vontades políticas. Salvo raras e honrosas excepções, que acabaram escondidas no fundo das gavetas, a resposta é sempre positiva para quem encomenda o trabalho. Por muito que obrigue a fantásticas cambalhotas jurídicas e a contradições de fazer envergonhar um estudante da Direito. Os pareceres são ao gosto do freguês, por mais que se tente dizer o contrário. É assim e ninguém contesta, sobretudo porque em caso de disputa legal a palavra final é dos tribunais, onde estes pareceres têm um valor pouco mais do que simbólico e só servem para aumentar o número de páginas dos processos e gastar papel. Mas custam milhares de euros, lá isso custam.

Mais grave é quando se encomendam discursos, análises e ensaios para dizer que estamos no bom caminho, que tudo o que fizemos é uma maravilha e que somos os melhores do mundo. É como ir a um médico e pedir que nos engane e diga que estamos de perfeita saúde, prontos para disputar uma maratona, quando as análises e todos os outros exames garantem que temos pouco tempo de vida se não mudarmos radicalmente o nosso comportamento e iniciarmos um tratamento a sério.

Só neste cenário é que se compreende um discurso, na sessão solene do dia da Região, em que foi traçado um cenário quase paradisíaco para a Madeira. Com mais de 25 mil desempregados, centenas de empresas a falir, mais de 6.500 milhões de euros de dívidas e toda uma população com medo de perder o emprego e sem saber o que lhe reserva o futuro, só no mundo da fantasía se pode dizer que tudo está bem e que as opções políticas foram as mais acertadas. A realidade exige mais decoro e algum respeito por quem passa por situações dramáticas.

Se o dado mais positivo desta terra foi a tal estabilidade política - leia-se vitórias sucessivas do mesmo partido -, melhor seria se a instabildiade tivesse sido a regra. Talvez a desgraça fosse menor.

Mas esta é a cerimónia que a Assembleia Legislativa da Madeira entende ser a mais acertada para comemorar o dia da Região. Um discurso encomendado a um académico, sempre a encontrar o lado positivo da situação económica e social do momento, por maior que seja a tragédia e vamos embora que está feito. Patético, no mínimo, complementado pelo circo proporcionado pelo maior aliado deste regime que faz as suas palhaçadas, tão previsíveis como o aparecimento do famoso 'emplastro' nas entrevistas antes dos jogos de futebol. Sai em braços, levado pela polícia e tem o dia ganho.

Mais patética foi a entrega de medalhas da Região. Este ano foram para pagar calotes. Receberam o prémio, entre outros, os empresários que, segundo o ainda presidente do Governo, fizeram as obras e não pediram o dinheiro. Só ficou por saber se essa dedicação toda à Madeira não obrigou a despedir alguns trabalhadores.

O dia da Região terminou com mais um momento patético, uma entrevista que também entrou pelo mundo da fantasia. Quem conseguiu ver até ao fim (desisti naquelas contas da dívida) merece receber uma medalha, no próximo ano.

P.S. - Ana Dulce Félix sagrou-se campeã da Europa dos 10.000 metros, numa prova em que massacrou as adversárias. Um título mais do que merecido para uma rapariga que, tal como a maioria dos fundistas portugueses, teve de trabalhar no duro - no seu caso numa fábrica têxtil - para poder correr. Não ganha milhões, não vai para os estágios de Ferrari... mas é campeã da Europa.