Assisti, maravilhada, à sessão de abertura dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. Assisti também com a convicção que os jogos fazem parte da nossa memória colectiva. Das férias grandes à frente da televisão, a ver as ginastas de Leste em piruetas impossíveis. Eram louras e sérias, feitas de uma disciplina que nos escapava na desordem de ilhéus e latinos. Eram assim como a Nikita de Elton John, no seu canto frio do mundo.
A cerimónia de Londres teve o condão de remexer na memória. O que muitos viram como um orgulho inglês exarcebado, eu vi como memória comum.
Como todos os impérios, o inglês também fez a nossa história. E mesmo sem entrar nas coisas sérias, é difícil não perceber que são também nossos os Beatles, o Mini, a música e a moda dos anos 80, o James Bond, o Mister Bean.
É nosso o 'Yes, Minister', é nosso o Harry Potter, é nosso o Hugh Grant e o poema de W.H. Auden em 'Quatro Casamentos e um Funeral'. Assim mesmo, dito num inglês perfeito, a falar da dor comum da perda:
He was my North, my South, my East and West, My working week and my Sunday rest, My noon, my midnight, my talk, my song; I thought that love would last forever: I was wrong.
São nossos ainda os textos de Shakespeare, todos os filmes, de Lawrence da Arábia a Trainspotting de Danny Boyle.
São nossas as histórias de Jane Austen, é nosso o Mr. Darcy e todos os clichés do amor romântico, da cavalheirismo e dos romances da adolescência.
Sim, há uma memória comum que, tal como os Jogos Olínpicos, une fronteiras, esbate distâncias e voa mais longe, mais forte, mais alto.