"Dantesco" foi o adjectivo patenteado, forçado e esforçado pelos jornalistas para descrever o fogo que consumiu a Madeira. Reporta a um cenário horroroso, teatral, angustiante, tétrico, identificável com o Inferno que o poeta medieval Dante Alighieri descreveu na sua Divina Comédia. O que é interessante em "dantesco" é o potencial. Qualquer pessoa que tenha passado os olhos pelo "Inferno" sabe que há muito mais do que fogo por lá (i.e., dantesco não é só metáfora para chamas). No poema existe, essencialmente, uma ideia medieval de que os desejos humanos devem ser orientados para a virtude e amor cristãos - reversamente, no Inferno, encontram-se todos os auto-indulgentes que não foram senhores do seu desejo impuro, acompanhados da malta mesmo mazinha que o seguiu voluntariamente. Conforme Dante deixa intuir, a condução dos desejos do homem para a graça divina caberia ao Estado e à Igreja. Ora, para o homem pós-moderno, esta coincidência entre a virtude e o rabo para o ar para o que a Igreja ou o Estado mandam fazer não só parece absurda, como é uma explicação mais que plausível para os tempos do nosso amigo Dante ficarem conhecidos como a Idade das Trevas. Mas o facto é que houve um cheirinho desses tempos na forma como os incêndios na Madeira foram tratados. Houve fogo posto ou esta catástrofe era previsível? É ou não necessário haver meios aéreos de combate ao fogo? Quem é responsável pela limpeza dos terrenos? Todas estas questões são matéria de facto. Não estão abertas a grande discussão. É possível determinar o que aconteceu e as obrigações de cada um com um grau objectivamente aceitável de certeza. Perante a opção clara de fazer um apuramento da situação, a maior parte dos responsáveis resolveu apontar para o fogo e falar no dedo. Quem era a favor do governo achava que a coisa tinha mão humana, queixando-se da orografia, da botânica, do olhado e das condições climatéricas incomuns. Quem era contra atribuiu a desgraça toda à incúria e à impreparação dos governantes e da protecção civil, como se caso contrário nada tivesse ardido. Ambos louvando "o povo" e os bombeiros. Nunca se viu tanto entendido em ordenamento do território, protecção civil e ciência forense. Um toquezinho de alarmismo, umas teorias da conspiração, rumores, uma demagogiazinha, e assim continuamos. Esta é a marca de uma sociedade que não cultiva a independência de espírito, cujos membros aguardam apenas por validação externa da sua convicção íntima. Esperam um Deus ou um Estado (ou uma versão de Deus ou do Estado) que os guie e alumie, independentemente da relação dessa orientação com o real. Numa terra tão pequena, é possível encontrar motivos obscuros para um fogo destas dimensões em qualquer lugar. Em vez de alimentar conspirações, os madeirenses devem se questionar pela altura do dia (ou noite) da ignição e dispersão dos fogos no território, e daí ajuizar a probabilidade de determinado fogo ser natural ou provocado, baseando-se também na opinião técnica da polícia. Em vez de lançarem palpites sobre os meios aéreos, seria curial procurar opiniões imparciais e científicas sobre o assunto. Em vez de louvarem "o povo" abstracto, deviam-se perguntar se esse povo que tão nobre, corajosa e solidariamente defendeu a sua casa e a dos outros não é, em parte, o mesmo que faz queimadas, polui as serras e deixa terrenos por limpar com uma nonchalance arrepiante. Mas nada disso interessa. O objectivo não é acudir à população, prevenir futuros incêndios, redefinir o papel da floresta na sociedade ou estabelecer que tipo de vegetação queremos para a área ardida (a imagem da Baixa Pombalina após o terramoto de 1755 é susceptível e aplicável). Importa é expiar alguém, e que esse alguém seja quem convier. Importa o sentimento simplista de pertença, de ser contra ou a favor, ficando a justiça, a razão, ou o sentido de comunidade para segundo plano. E isso é dantesco, mesmo quando já nada arde nesse cantinho (pendurado pelas pontas dos dedos) do Céu. Haja elevação.

Pedro Fontes