Gostava de pensar que a tolerância de ponto habitualmente concedida a propósito do rali este ano teria chegado ao fim por outras razões, mas creio que deverá ter sido apenas porque a prova se desenrola apenas no fim de semana. Nunca entendi a ideia subjacente às tolerâncias de ponto do setor público. Parece razoável pensar que o estado do nosso Estado não se compadece com um dia a menos na produtividade, ainda por cima pago pelo erário público. Não está sequer em causa a disparidade de oportunidades entre os setores público ou privado. Fez escola na Madeira a ideia de que uma tolerância de ponto para que a população assista a um evento desportivo é positiva, pois engrandece o próprio evento. Nada mais errado. Não apenas porque só uma ínfima parte dos beneficiários da medida assiste efetivamente à prova na estrada, mas principalmente pelo exemplo dado pelo Estado. Nesta como noutras "tolerâncias" o Estado convida ao laxismo e à falta de rigor, criando nos cidadãos a ideia de que a permissividade é a regra e de que a festa está primeiro. Vivemos hoje sérias dificuldades e, embora nos queiram por vezes convencer do contrário, somos um país pobre no contexto europeu, que actualmente vive de dinheiro emprestado: as famílias, as empresas, a banca e o Estado. Algumas das tolerâncias de ponto dadas na Madeira (como a que foi dada para ouvir o discurso de um governante) não são admissíveis. Creio que os portugueses em nada ficam a dever aos restantes países europeus com maiores índices de desenvolvimento do que nós: não nos falta capacidade, talento, engenho e arte. E temos como latinos, esta razoável dose de despreocupação com o dia de amanhã. Temos tudo, diria mesmo, para sermos os melhores (e não apenas quando o tema é futebol). Mas enquanto continuarmos a deixar de sermos exigentes connosco próprios e com quem nos governa, iremos ser ultrapassados por aqueles que, agora e quase sempre, governam a Europa olhando de soslaio para os portugueses.

Luís Sena Lino, Consultor de Marketing e Comunicação