A RTP-2 acaba de transmitir um excelente documentário de Jorge Costa intitulado ‘Donos de Portugal’. É um levantamento histórico sustentado numa extensa investigação que permitiu traçar pontes entre os nomes mais sonantes deste País durante mais de um século. Olhando para a teia que a televisão mostrou, rapidamente se conclui que “isto está tudo feito”. Os grandes negócios nas mãos dos mesmos, famílias poderosas que acumulam poder, grupos de interesses muito fortes e bastante bem organizados. E, sobretudo, uma sólida base de sustentação política assente nos partidos do arco do poder. O trabalho obrigou a remexer em arquivos do tempo da outra senhora. A mostrar imagens a preto e branco de senhores de casaca, chapéu e bigode revirado e a ir às origens dos grandes impérios que se ergueram em largas décadas. Outro aspecto importante é o facto de muito ex-governante do Portugal democrático estar ligado a tanto actual grupo empresarial importante, mesmo que à gosma dos sucessivos governos. Basicamente são estas as duas grandes diferenças entre os donos de Portugal e os donos da Madeira. Por cá, com excepção de alguns impérios antigos, hoje seriamente fragilizados, o que temos são novos ricos que mandam nisto descaradamente mas como se isto não fosse nada com eles. Não se assumem capitalistas, nem patrões e quase passam por simples empregados ou deputados ou apenas chegados a quem tem influência política. Por cá, não tempos isso de ex-ministros e os poucos ex-secretários que temos, todos do mesmo partido, ou se reformaram ou fazem o mesmo que os ex-governantes de lá, de pelo menos três partidos em 115 nomes estudados para aquele documentário. Por cá, não precisamos recuar tanto tempo para ligar as pontas que fazem desta Madeira uma aldeia de um punhado de ricos que se fizeram ricos com a Autonomia. Com jeito, nem precisamos de fotos ou de imagens a preto e branco. Porque são riquezas emergentes. Fortunas que nasceram de uma década para a outra e que começaram a dar nas vistas nos últimos anos. Algumas ainda nem serão muito visíveis, mas certamente que existem. São empresas com nomes tão insuspeitos como estranhos, com sedes tão próximas como tão distantes, com gestores tão conhecidos como outros perfeitamente anónimos num emaranhado de nomeações, destituições, compras e vendas e cedências e aquisições e muitos milhões. A concluir o documentário, afirma Fernando Alves, numa excelente locução, que “para quem contrata, a influência política é o activo mais desejado”. Ora, por cá, a influência política está apenas nas mãos de um partido, logo nem é preciso contratar ninguém. Basta garantir a influência de quem decide para facilitar as coisas, abrir portas sempre com a ‘melhor das intenções’: a de que a economia seja liderada de preferência pelos nossos e não pelos de fora, tal como fez Salazar e outros antes e tantos outros depois dele. Os resultados estão à vista numa economia cada vez mais globalizada. Mas, ao contrário do País, onde os donos preservam os nomes aristocráticos de várias gerações, os donos da Madeira têm nomes vulgares, embora com peso político suficiente que lhes garante peso económico ou vice-versa. Não se pode aqui generalizar ou sequer menorizar quem cresceu à custa de muito trabalho, de olho para o negócio ou de simples sorte ou pura herança. Há gente com mérito e é justo reconhecê-lo sem qualquer resistência. Mas também é preciso notar as influências que se movem no tabuleiro de um estranho jogo de xadrez onde a esmagadora maioria das peças não passa do estatuto de simples peão. A diferença é que, aqui, os peões e as torres são sempre os mesmos há mais de 30 anos. A diferença é que os donos da Madeira são sempre os mesmos desde que vivemos naquilo que simpaticamente chamamos de democracia.