Miguel Relvas está debaixo de fogo. Melhor dizendo: continua debaixo de fogo. Já o estivera antes, aquando do episódio "Jornal Público". Continua agora por razões distintas ainda que igualmente melindrosas. Este novo episódio Relvas é na verdade sintomático a vários títulos. Relvas encontrava-se inscrito em ensino universitário havia já cerca de duas dezenas de anos. Por junto frequentou três Universidades, todas privadas, tendo no conjunto das suas primeiras passagens pelo ensino superior adregado fazer uma cadeira. Até que se matriculou na Universidade Lusófona onde concluíu uma licenciatura em Relações Internacionais. Em Politica, notícia também é quando o homem morde o cão. O facto de Relvas, embora a destempo, se ter licenciado por uma Universidade Privada, não teria acrescentado nada á sua história de vida não tivessem sido as circunstancias anómalas em que a licenciatura ocorreu. Na verdade, Relvas concluiu a licenciatura no espaço de um ano, tendo realizado apenas quatro exames, facto este último que não é ainda em todo o caso um dado adquirido. E obtido trinta e duas equivalências.! Em declarações a um canal televisivo, um dos Administradores da Lusófona retirou carga á dose de espanto que acompanha a revelação do facto, colocando a tónica na excepcionalidade do "curriculum" de Relvas. Que se conheça, para além dos cargos que exerceu no aparelho do PSD, Relvas apenas tinha sido membro da Delegação portuguesa junto da Nato entre 1999 e 2002, tendo desempenhado funções como Secretário de Estado do Governo de Durão Barroso. Pouco, muito pouco, para justificar o tratamento de excepção que lhe foi dispensado e que a situação não parece justificar. É que sendo verdade que se acha dentro das competências que são ás Universidades conferidas o poderem conceder equivalências de forma fundamentada, é condição para que a equivalência possa ser concedida que a mesma seja acompanhada de um relatório fundamentado circunstancia a circunstancia. Não foi o que aconteceu com Relvas, em que a fundamentação foi genérica quando se tratava de saber a razão porque a Relvas era concedida equivalência cadeira a cadeira. E a adensar a suspeita de que alguma coisa não está bem neste processo, o facto de o Reitor da Lusófona no Porto, Fernando Santos Neves, ter entretanto apresentado a sua demissão. O que é espantoso neste caso , tal como de resto já antes acontecera, é que Relvas não necessitava de ser portador de uma licenciatura para poder ser ministro. John Major, que foi primeiro ministro da Grã Bretanha antes de Margareth Tatcher, não era portador de qualquer licenciatura tal como acontecia com Jacques Delors que ainda hoje, anos decorridos sobre a sua saída de cena, é uma voz ouvida e respeitada na Europa. O que demonstra que não é o título universitário que confere credibilidade. Alguns políticos portugueses no seu atávico provincianismo ainda não foram capazes de compreender isto nem mesmo depois do que havia acontecido com Sócrates. Este episódio Relvas, contudo, para além da manifestação de parolismo intelectual que lhe está subjacente, envolve ainda uma outra faceta, essa com consequências mais funestas. Fosse Relvas a única vítima deste infeliz episódio e poderia concluir-se que tivera aquilo que havia merecido. A questão está em que não é. A Universidade Lusófona insere-se num grupo frequentado, nas suas diversas frentes, por cerca de dez mil alunos do ensino universitário. Muitos dos quais já começaram a sofrer as consequências do episódio Relvas. Quem o disse foi Manuel Damásio, seu Administrador, que aludiu designadamente a descriminações no âmbito da selecção de "currículos". E disse-o exautorando o procedimento de quem agia assim. Sem ponta de preconceito, há que admitir que a prática da Lusófona de que Relvas foi beneficiário não é, felizmente, uma prática corrente, a qual de resto levou o próprio Damásio a admitir não ser usual a concessão de um tão grande numero de equivalências. E é a insídia da suspeita que constitui um factor de descredibilização. Num tempo em que a qualificação se apresenta como uma marca de qualidade, em que se buscam factores de preferência para suportar e avalizar "currículos", o ser habilitado com um grau académico por uma universidade que distribui benesses com base em critérios políticos não se mostra seguramente como a melhor das recomendações. Que constitui justamente o inverso daquilo que procura quem pretende somar ferramentas ás suas qualificações como forma de se afirmar no mercado do trabalho.

Carlos Sequeira