Acordei tarde, são quase 22h30 e não tenho tempo para jantar, meto-me no duche, nem desfaço a barba, roupa confortável, ténis calçados, hoje é noite de tocar. O facto de não ter dormido muito ao longo do dia não me chateia, saio a correr para o carro, com a mala dos discos numa mão e na outra as chaves, como sempre esqueci-me do telemóvel, volto atrás e com cara de desespero entro a correr em casa, não encontro o telefone, ah espera, está aqui, está sempre, não há tempo para despedidas, estou atrasado outra vez. Chego ao Clube, pouso a mala e acendo um cigarro, há um ritual a cumprir, ligo os amplificadores, a mesa de mistura os giradiscos e os leitores de CD, o tempo urge, estamos quase a abrir, as luzes estão programadas, o som está pronto a debitar. Os primeiros noctívagos chegam, a música está calma ainda, tudo acontece a seu tempo, os amigos passam pela cabine, soltam-se sorrisos, apertam-se as mãos, hoje há qualquer coisa no ar, as pessoas querem dançar. O som torna-se mais presente, o número de batidas por minuto aumenta, começamos a sentir os graves, a pista de dança está composta, não sei se será o momento para tocar aquele disco que não me sai da cabeça, pôr música é usar o instinto, é correr riscos, e assim o faço, ouço os primeiros gritos, os braços erguem-se por entre as luzes, é isto que me atrai no djing, o facto da pista de dança reagir ao discos que descobrimos. As horas passam, os picos sucedem-se, há que levar a pista de dança a bom porto, nisto paro a música, toco em 'à capella' o refrão daquele disco que quase todos conhecem, o choque funciona, as pessoas sentiram, são pequenos momentos que marcam uma grande noite. Por fim são quase 8 da manhã, depois de um 'encore' tiro a agulha de cima do disco de vinil cheio de impressões digitais, o publico reage, aplaudem, estão a aplaudir o momento que viveram, não o DJ, e são estes momentos que espero viver no próximo fim-de-semana outra vez.

Michael C, DJ