A falência do modelo económico e dos sistemas sociais que dele dependem, a par da descoberta da fragilidade quanto à capacidade de a própria democracia manter a liderança nos processos de decisão, juntam-se, à mais que verificada escassez de recursos naturais necessários para o sustento de um suposto desenvolvimento, que caminha, a passos largos, para os seus limites. Aquilo que parecia ser apenas o fracasso de pequenos países tradicionalmente desorganizados, pouco competitivos e produtivos, afinal, é o destino guardado também para grandes potências económicas, sejam países sejam economias organizadas em blocos regionais neste mundo cada vez mais pequeno. Se o diagnóstico está feito, a mudança de paradigma não é fácil. As naturais resistências à mudança, a teimosia de quem julga que só há-de resistir e ainda a maquiavélica intenção dos predadores, senhores dos mercados, de se segurar à presa enquanto ela tiver algo para dar, são os obstáculos mais imediatos a ultrapassar. O caminho para um novo modelo de desenvolvimento, ou economia verde, carece de uma agenda que contemple a identificação e ultrapassagem desses obstáculos. Há sinais, simbólicos, mas também indicadores interessantes e actores relevantes que começam a contribuir para a definição dessa agenda. Da avaliação inicial, não restam dúvidas quanto à necessidade, possibilidade e relevância económica (eficiência) dessa nova economia em oposição à falência da actual. Dos obstáculos, os principais são a inércia política e comportamental/social, a par da inexistência de instrumentos financeiros adequados. Não é sequer a falta de recursos financeiros, é a sua incorrecta formulação e atribuição. Outra matéria relevante a ter em consideração tem a ver com a própria definição de economia verde e a sua explicitação enquanto modelo. Deve procurar-se fugir ao discurso teórico, muitas vezes olhado como utopia e, por isso, não suficientemente mobilizador. A economia verde deve estabelecer objectivos claros, numa formulação com acções e metas de curto prazo e outras a atingir em cada década. Esses objectivos devem contemplar a obtenção de resultados visíveis, sobretudo à escala local, a mais próxima das pessoas. E devem ser mensuráveis, através de indicadores claros e consistentes. Neste processo de transformação, há que identificar e promover as mudanças necessárias para remover os obstáculos gerados por centenas de anos de uma burocracia desmesurada e, em muitos casos, desfocada da realidade e até de sentido. Serve-se a si mesma sem qualquer motivação ou ligação à realidade que deveria servir. Constitui-se como um objectivo, um monstro impávido, em vez de instrumento ágil, flexível e inteligente, ao serviço da melhor solução, que não tem que ser sempre a mesma solução. A economia verde não será um modelo uniformizado, padronizado e de aplicação cega. Cada região, cada país há-de formular as melhores estratégias para si, num quadro de cooperação mas, sem perda da individualidade, o que afinal é a melhor defesa de uma necessária plasticidade e capacidade evolutiva de qualquer sistema. Não deve ter meta definida, devendo ser antes um processo, uma tendência ou um caminhar em direcção de uma sustentabilidade, sendo a sustentabilidade um objectivo que se redefine a todo o momento, beneficiando da flexibilidade, do conhecimento e da vontade, face à realidade de cada momento.
António Domingos Abreu