“Tudo neste mundo tem seu tempo; cada coisa tem sua ocasião. Há um tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir; Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar: tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar; Há tempo de procurar e tempo de perder; tempo de economizar e tempo de desperdiçar; tempo de rasgar e tempo de remendar; tempo de ficar calado e tempo de falar. Há tempo de amar e tempo de odiar tempo de guerra e tempo de paz”
Eclesiastes 3, 1-8
A maior parte dos madeirenses tem esta máxima bíblica perfeitamente interiorizada e faz dela um modo de vida. Os violentos incêndios que deflagraram por toda a ilha são disso exemplo. A capacidade de reacção, abnegação e luta das populações é uma esperança para o ser humano em crise.
Mas esta coisa de esperar que o tempo passe para chegar o tempo da coisa seguinte tem também muito que se lhe diga. E é de dispensar os exageros. Porque se é verdade que quando o fogo arde é preciso apagar primeiro as chamas, não é menos verdade que uma vez extintas as labaredas é tempo de reflexão e aprendizagem.
Ou estamos condenados a daqui a um ano ou dois pensarmos que não aproveitamos o tempo para tirar consequências. E de repente, já ardeu tudo outra vez.
Se quem tinha a responsabilidade maior de respeitar o tempo dos que sofrem não deu o exemplo e preferiu o caminho das declarações incendiárias contra pirómanos, bombeiros e gente inconsciente que não limpa, porque tem a oposição ou o cidadão de espírito crítico e livre de calar o que sente?.
Há coisas que não se podem controlar. As temperaturas quentes e fora de contexto, a maldade humana. Mas a incúria não. Essa tem rosto e tem culpados.
Se é verdade que um presidente de Câmara não é bombeiro, não é menos verdade que ele é responsável pela protecção civil e é vergonhoso que tenha ido a banhos quando o seu município ardia de lés-a-lés e as pessoas que o elegeram ficavam sem as suas casas. É de uma insensibilidade atroz.
E não é só pirómano quem lança o fósforo ou a tocha, mas também o que dá condições para que as chamas se propaguem. Venderam a ideia aos madeirenses de que vivem num cantinho do céu e essa ilusão pegou num rastilho tão eficaz como o de mato seco de terrenos ao abandono.
As gentes desta terra também têm conhecido o sabor ao inferno e está a chegar o tempo de decidirem se querem que a culpa morra solteira ou responsabilizar a irresponsabilidade dos que preferem a ostentação à segurança. A mentira, o sonho, a ilusão, à realidade. Que está neste momento coberta de cinzas.