M.S. Gouveia Em 1978, curiosamente o ano da entronização de um jornalista ao leme dos destinos da então pauperizada e sustentável Região Autónoma da Madeira, estreou na TV uma série intitulada de "Ilha da Fantasia". E, se no caso do arquipélago atlântico viviam-se tempos conturbados, por entre atentados bombistas e delírios independentistas (entre os quais do falecido líder líbio Kadhafi), na onírica ilha televisiva cumpriam-se os sonhos dos visitantes mediante a dispensa da exígua quantia de cerca de 150 mil euros (valor ajustado à actualidade). Vencidas 36 primaveras, o pequeno Tattoo já há muito que não toca a sineta anunciando a aproximação do hidroavião e da paradisíaca ilha do Pacífico restam apenas as recordações dos seus espectadores envoltas numa névoa nostálgica de uma época em que a criatividade individual desbravava os caminhos da felicidade. Contemporaneamente, no oceano que recorta a Europa, a ilha designada por Pérola do Atlântico sofre um processo de metamorfose, penhorando o seu legado natural, numa ânsia desenfreada de apagar quaisquer vestígios de um passado. Esta transformação, se a espaços partilhou caminhos com o progresso e o desenvolvimento, alienou-se de planeamento, estratégia e sustentabilidade, imersa num intrínseco complexo de inferioridade, terreno fértil para arrebanhar incautos com doutrinas preconceituosas e xenófobas. Hoje, comparando as duas ilhas, verificamos que ambas satisfizeram os sonhos de alguns, privilegiados, com a divergência de que, no caso da Madeira, serem os seus habitantes a suportarem os encargos da fantasia. Sem fim à vista, a solução para qualquer problema com que se depara esta fantasia atlântica é sempre descer mais profundamente na lura, qual Alice no País das Maravilhas, arrastando a todos num vórtice de insanidade. Transportados neste turbilhão, e com alguma atenção, podemos identificar muitas disciplinas circenses, como truques com números, malabarismos contabilísticos, ilusionismo estatístico, equilibrismo político, acrobacias empresariais e, o cada vez mais frequente, desaparecimento de fortunas, ainda granjeados com ensurdecedores aplausos, acompanhados com vociferantes pedidos de "bis". Fantasias de uma região de novos-pobres, doutrinados com caros vícios e vivendo um gritante estado de negação que mantêm retirando legitimação no conforto dos erros alheios. Assim, e não dependendo de audiências, este show continuará no ar, com uma fé asinina naqueles a quem foi servida a pérola do Atlântico.