Há mais de três décadas que os madeirenses vivem em constante clima de violência verbal e de comportamentos excessivos somados agora a défices excessivos. É tudo excessivo. Um cansaço que esgota. Esgota ouvir diariamente discursos e declarações fora de contexto, irrealistas, acicatadas com mensagens subliminares dirigidas a uma guerrilha já sem comando. Pergunto-me se não é tempo desta gente parar, pensar e reflectir sobre o que anda a fazer, em vez de atear palavras como se fossem focos de incêndio, dia sim, dia sim. Esta foi uma semana trágica. A Madeira, e quem a governa, deveria saber do historial de incêndios que desde o povoamento grassam por esta terra de matagais, eucaliptos, pinheiros e urzes… e fico-me por aqui. Se recuarmos aos anos da segunda guerra mundial, por exemplo, encontramos um Agosto de calor em que o fogo saltou entre a Portela, Ponta do Sol e Ribeira da Janela, Encumeada, Fajã da Ovelha, Campanário, Estávamos em 1940. No ano seguinte, foram as serras do Poiso que devido ao vento atingiu grandes proporções. Inicialmente atacado por militares que posteriormente actuaram em conjunto com a polícia rural e florestal e os bombeiros municipais. Mas será que ainda estamos na década de 40? Nada evoluiu? Centenas e centenas de episódios iguais a este, antes e depois da data referida, enchem páginas do Diário de Notícias da Madeira. Portanto, nada disto é novo. O que me impressiona é a falta de segurança e de planificação, falta de recursos humanos e materiais, falta de um plano sério que deixe as pessoas mais protegidas em vez de comunicados agressivos e insinuosos que faz com que a cada cidadão lhe seja atribuído a responsabilidade de denunciante. Um perigo em termos sociais. Aliás, basta ouvir a quantidade de boatos que por aí circulam e se alimentam. E se alguém resolver, a partir da mesma, começar a fazer a lista dos suspeitos? Acho que os madeirenses têm direito a um plano de emergência que os salve a tempo e horas antes que seja tarde demais. Os bombeiros madeirenses deveriam ser homenageados. Mas a população que não é tonta e já percebeu tudo. E intimamente já lhes agradeceu. Quem não admitir que o sistema está doente e precisa de uma nova terapêutica está a empurrar a região para a incúria institucionalizada. E vou usar uma metáfora que há dias alguém utilizava como desabafo. O problema destes anos, sobretudo a partir de 1978, é que quem governa usou sempre a mesma droga para o mesmo paciente e….funcionou porque nunca quis saber dos efeitos secundários dessa medicamentação. Todos se calaram, apesar dos alertas. Agora, o drama, meus senhores, é que o silêncio acabou. Mas a contradição mantém-se pois quem ainda governa acredita piamente na tal composição química milagrosa que, neste momento, só potencia os males da doença. Lília Bernardes, Jornalista do DN-nacional na Madeira
Lília Bernardes