Manda o bom senso que não se trate de algumas questões relacionadas com os bombeiros na altura dos incêndios. Avaliando assim pelo ar, haverá em cada ano uma média de 11 meses para abordar e discutir todas as situações laborais e profissionais dos ‘soldados da paz’. Após a luta titânica e a entrega sem limites a que assistimos no final da semana passada, com os bombeiros a minimizarem uma tragédia que poderia ter tido outras proporções, soa a injustiça ‘tocar’ no corporativismo e nalgumas coisas surreais – que existem, sim senhor. No entanto, quer se queira, quer não, a discussão está instalada. Por isso, é aconselhável deixarmo-nos de rodeios e encarar as questões. Todos os pontos de vista são válidos, todas as justificações são permitidas. Todas. Desde logo, convém chamar à atenção que a pior altura para avaliar se temos ou não bombeiros a mais é, precisamente, quando os ‘soldados da paz’ não puderam corresponder a todas as solicitações. Nem podiam. Nem que eles existissem em triplicado. É óbvio que, com tanto incêndio para apagar, todos os bombeiros eram poucos... Apagado o fogo, ‘baixando à terra’, é óbvio que temos bombeiros a mais. E não é porque agora essa constatação dá jeito ao dr. Jardim, atacado por um efeito amnésico qualquer. A conclusão é do presidente da Federação das Associações de Bombeiros da Região Autónoma, em recente entrevista ao DIÁRIO. Com a frontalidade que se lhe reconhece, Rocha da Silva refutou a criação de uma corporação única com base num argumento de peso: se forem por aí, a primeira conclusão a que chegarão é que teremos de dispensar metade dos bombeiros. Nada mais claro. Nada mais transparente. Portanto, importa ter estas ‘capelinhas’ espalhadas por toda a ilha. E em cada uma delas distribui-se 3 ou 4 homens do PSD, com muitos chefes e comandantes. E assim vivemos durante as últimas três décadas, com o presidente Jardim a somar festas de aniversário e a distribuir discursos elogiosos a dirigentes a quem não se lhe conhece nenhuma acção relacionada com bombeiros, à excepção das faustosas festas de aniversário ou intercâmbios com corporações estrangeiras. Aliás, sempre me gerou uma enorme confusão essa proliferação de dirigentes dedicados aos bombeiros, todos eles do PSD, como se esse fosse um requisito obrigatório. Também nunca percebi porque essa gente se acotovelava na disputa desses lugares. Mas sei que, durante muito tempo, a folha de salários e de horas extra de várias corporações foi um regabofe que dava para pagar todo o tipo de disponibilidade, desde a desportiva à partidária, passando por outras coisas bem mais esquisitas. Aqui chegados, depois de 3 ou 4 ciclos de ‘sete anos de vacas gordas’, ainda continuamos com uma série de ‘quintinhas’, cada uma com os seus capatazes. Nós nem demos pela aberração, porque já convivemos com isso há muito, mas quem chegasse aqui em pleno período de incêndios e ouvisse, como foi efectivamente dito, que “viemos fazer prevenção ao concelho vizinho e aproveitámos para, em solidariedade, ajudar os bombeiros doutro município”; ou “os bombeiros de Santa Cruz agradecem a ajuda prestada pelos bombeiros de Santana”; o mínimo que faria era perguntar: Como?! Solidariedade?! Ajuda?! Então, uma ilha com ‘três metros quadrados’ precisa de tantas corporações de bombeiros, de tantos comandantes, de tantos presidentes, de tantos dirigentes? Não admira que faltem bombeiros para justificar tanta hierarquia! Com as modernas tecnologias, que não foram inventadas no mês passado, e com os excelentes profissionais disponíveis nas várias corporações, seria possível uma nova orgânica mais funcional, menos politizada e menos custosa, talvez com os verdadeiros bombeiros melhor remunerados, em paralelo com uma distribuição estratégica pela ilha dos equipamentos disponíveis. Umas e outras, pessoas e máquinas, estariam sempre disponíveis para apagar o incêndio que surgisse, fosse ele na Ponta do Pargo ou na Ponta de São Lourenço. Podíamos dispensar essa coisa da ‘colaboração’ e da ‘solidariedade’, estariam todos a lutar pela mesma causa, com uma coordenação sem empecilhos nem salamaleques políticos. Com essa grande vantagem de mandar um rol enorme de ‘dirigentes’ cuidar das flores lá de casa. Até porque já não há dinheiro para mordomias e eles já não se importam de desamparar a loja.